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Por
Carla Cintia Conteiro
A
melancia
27.agosto.2005
O inverno ainda não terminou
no Rio de Janeiro e já estamos em pleno verão. É hora de desencavar minha
adorada bolsa de melancia. É, eu tenho uma
bolsa de palha em forma de meia lua que tem a estampa de uma melancia. Seu
fundo é listrado de verde claro e escuro. A parte mais baixa da lateral
vai de um verde mais escuro a um verde mais claro, chegando finalmente num
verde quase branco. Depois, um lindo e vivo vermelho salpicado com
pontinhos pretos que fazem as vezes de sementes.
Sair com essa bolsa é
sucesso certo. Perdi as contas das vezes que me pararam na rua para
elogiar e perguntar onde comprei. Verdade que sair com uma melancia
pendurada era uma façanha impensável na minha adolescência. Hoje não me
aperto se sou posta na berlinda e até consigo brincar com isso, passeando
por aí com uma melancia de acessório.
Dizem que mais do que de
aranhas e da morte, os seres humanos têm medo de falar em público, de
serem postos em evidência. Também explicam que a única forma de vencer
este pavor é a segurança e ela só vem com a experiência e o preparo.
Talvez quem se esconde tenha medo de não ter o
que dizer ou de não dizer corretamente o que precisa. E se atraindo
olhares fizer ou falar uma besteira? Melhor
ficar encolhidinho e rezar para ninguém notar. O motivo seria, então, o
pavor do julgamento alheio. O que os outros vão pensar?
E há também quem pague
qualquer preço para ratificar a profecia de Warhol,
mesmo que para isso tenha que usurpar a melancia alheia ou, ao menos,
filar uma fatiazinha. Pensaram em micos saqueadores de frutas, daqueles
que fazem a festas das câmeras dos turistas encantados com o exótico? Ou
naqueles morceguinhos que juram que são
herbívoros, mas que têm sempre um sumo rubro escorrendo pelo canto da
boca, que deixa a dúvida sobre ser frutífero ou sanguíneo? Pois estão
montando uma imagem bem próxima do que quero dizer. O mais triste é que,
não raro, uma vez conquistada a luz dos holofotes captamos um estrondo que
nos deixa absolutamente desconcertados e desconfortáveis. É o som do oco.
Li outro dia que o lado bom
de ser idoso é que você pode dar uma banana para o que os outros pensam.
Devo estar ficando velha. Porque pode até não ser lá muito agradável saber
que pensam coisas pouco lisonjeiras a meu respeito, mas não é esse o tipo
de coisa que me paralisa a ação e o gosto. Já faz um tempinho que descobri
certas coisas valiosas. A primeira é que não importa o que se faça ou
deixe de fazer, algumas pessoas vão gostar e outras não. Depois, reparei
que os motivos das críticas mais apaixonadas muitas vezes
acabam virando modelo para os mais ardorosos
críticos. Portanto é bom estar atento à incongruência entre o dedo que
aponta e o olho que cobiça. E finamente, percebi que na hora do
pega-pra-capar as pessoas que saem de fininho são as mesmas de sempre. As
que ficam ao nosso lado, também.
E, para estas, não tem a
mínima importância se eu uso ou não uma bolsa de melancia.
Democracia
realmente, afinal
04.setembro.2004
“Uma
idéia que não é perigosa não pode ser considerada, de fato, uma idéia.”
(Oscar Wilde)
Ontem,
um colega de faculdade que não vejo há mais de quinze anos me localizou
no Orkut. Alguém do Sul, que ainda não tive o prazer de conhecer
pessoalmente, mas que já considero amiga, me agradeceu esta semana
porque a ajudei a encontrar e comprar na rede um disco que ela procurava
havia tempos, mas não achava na sua cidade. Minha amiga que mora nos
Emirados Árabes já viu no Multiply as fotos que tirei do meu filho no
último sábado. Coisas maravilhosas como esta acontecem todos os dias.
Descobrimos muitas novas maneiras de nos aproximarmos, de divulgarmos
nossas idéias, opiniões e umbigos. Visitamos museus do outro lado do
oceano, conferimos as instalações dos hotéis onde iremos nos hospedar em
Nova York ou em Paraty, ouvimos um trecho da música que iremos
comprar... O capitalismo descobriu a força da Internet que, mesmo não
sendo o eldorado projetado inicialmente, é uma irreversível e atraente
forma de estabelecer comunicação e fechar negócios com clientes. Contudo
a maior de todas as revoluções que a Internet pode trazer, a realização
de uma utopia, ainda está por ser discutida: a transformação
democrática.
Todo o
sistema democrático atual está baseado na representatividade. E assim o
é porque seria impossível ouvir a opinião de todos os habitantes do
país, do estado ou mesmo de um município. Por este motivo elegemos
vereadores e deputados estaduais e federais. Teoricamente eles deveriam
ser nossa voz em suas determinadas câmaras. Infelizmente, isso acontece
raramente. Mais comum é que nosso voto seja investido em alguém de
acordo com sua plataforma política, entretanto, tão logo este nosso
representante toma posse de seu cargo, esquece suas promessas, troca de
partido, nega o que afirmava.
Porém
está chegando cada vez mais perto o momento em que todos os cidadãos
poderão ser ouvidos. Com a internet chegando a todos os cantos do nosso
país, é possível que cada assunto seja apreciado. Vamos realmente ouvir
a voz do povo, afinal.
Evidentemente há que se criar mecanismos para que não haja o tipo de
distorção que há hoje no judiciário em que uma briga de vizinhos por
causa de um cachorro vai parar no Supremo Tribunal Federal. Cada assunto
deverá ser mantido em sua instância. E cada projeto só poderá ser
apreciado e votado se conseguir um número mínimo de assinaturas, algo
semelhante ao que já acontece atualmente nas emendas populares (por
exemplo:
www.gabrielasoudapaz.org).
Os textos dos projetos estariam disponíveis online. As
assinaturas seriam online. As votações seriam online. O
voto secreto e opcional seria realizado por eleitores cadastrados
virtualmente, de acordo com seu número de título de eleitor.
Isso
mexeria com diversos interesses, como pode-se facilmente imaginar. Não
seria ótimo? O executivo continuaria, mas se tornaria finalmente um
servidor da população e não seu soberano.
Para a
execução de tudo isso, seria necessário apenas que cada localidade
tivesse pelo menos um ponto com acesso à internet que a população
pudesse utilizar: agência dos Correios, prefeitura, igreja... Com passos
de formiguinha, isso vem sendo feito em todo o Brasil por pessoas
envolvidas com a democratização da informática. Alguns outros requisitos
estão sendo cumpridos, como a redução do analfabetismo. E a
implementação deste sistema alavancaria o desenvolvimento do país, já
que os recursos seriam aplicados onde realmente são necessários e seriam
levados em conta os verdadeiros interesses da nação. Seria um passo além
do orçamento participativo.
Você
abraçaria essa idéia?
THERE
IS NO SUCH THING AS FREE LUNCH
27.março.2004
Não
acredito em demônio e acho que as tentações a que somos submetidos
diariamente são fruto da própria natureza humana imperfeita. Se vamos ou
não resistir a elas é uma questão de personalidade, caráter, educação,
formação moral e ética, experiência de vida e, em casos extremos,
necessidade e sobrevivência.
O que
importa é que a tentação só pode ser chamada assim quando nos toca, quando
nos atrai. O que para uns pode passar despercebido, para outro pode ser
motivo para grandes conflitos.
Os
estudiosos do episódio da tentação de Jesus no deserto, que eu entendo
como uma alegoria, afirmam que tudo isso se baseia em três pilares: a
carne, a soberba e a cobiça.
A carne
representaria as necessidades mais vitais, os instintos básicos dos seres
humanos. Alguém com fome sente-se tentado a roubar um pão. Uma mulher
ignorada sexualmente pelo marido é mais vulnerável às investidas de outro
homem.
E esta é
também uma questão importante, a vulnerabilidade. Se alguém está tentando
deliberadamente prejudicar outra pessoa, procura usar não só o que lhe
atiça a vontade, mas também busca o momento em que a pessoa encontra-se
mais fragilizada, ou ataca pelo flanco mais fraco.
A
soberba e a cobiça andam de mãos dadas muitas vezes. Começa com alguém
achando que é mais merecedor que os outros e que por isso pode tudo o que
os otários não podem. O que ele quer, ele toma sem pedir licença.
Alguém oferece propina e o sujeito acha justo, afinal, pensa ele,
conquistou uma posição em que sua influência é valiosa, deve ser
remunerado por isso além do que está recebendo em seu contra-cheque.
E é com
isso que trabalham os estelionatários, levando suas vítimas a pensarem que
são muito espertas e que estão se dando bem às custas de um mané,
quando quem está fazendo papel de mané são elas mesmas. Todo mundo
já ouviu, por exemplo, sobre o golpe do bilhete premiado, aquele em que
alguém se faz passar por humilde e ingênuo, enreda o outro como se tivesse
em seu bolso o tal volante, mas – coitadinho – precisa voltar com urgência
para sua cidade natal. Mas o interlocutor parece ser tão boa pessoa. Será
que não poderia adiantar algum dinheiro para a viagem e outras
emergências? E ficaria com o bilhete, descontaria o valor na Caixa e
enviaria depois para a casa dele no interior. Além do que está sendo
emprestado agora, o sortudo pode tirar mais um tanto por conta da
sua bondade, viu? E o espertalhão pensa que está dando a volta no caipira
ficando com o bilhete em troca de alguns caramingás. Mas quem fica
com o mico de um bilhete sem prêmio e ainda sem suas merrecas é
ele. Como ele é malandro, né?
Tem que jogar a isca de
acordo com o peixe que se quer pegar, na hora certa. E quem quiser manter
a ética, tem que conhecer seus limites, suas fraquezas porque sempre vai
ter alguém ou algo provocando a ira do irritadiço, a gula do gordo, a
imobilidade do indolente, a soberba do vaidoso, a avareza do ambicioso, a
luxúria do metrômano ou do solitário e a inveja daquela que se acha
injustiçada porque merecia mais que você o que é seu.
Se cada
um tem seu preço, é preciso saber qual é seu real valor e decidir se o que
se vai ganhar vale sua integridade moral. E é preciso não perder de vista
os pesos das coisas. São situações bastante diferentes contratar a sangue
frio um grupo de extermínio para dar cabo dos moleques que assaltaram sua
loja e atirar no assaltante que naquele momento está espetando uma faca no
pescoço de um seu filho.
Nada é
de graça. Nem os ingressos para aquela peça. Os produtores esperam que
você divulgue e elogie. Nada vem fácil, sem uma etiqueta de preço. E se
você não viu a etiqueta, prepare-se para o recebimento da fatura. Quer uma
pista do tamanho da conta? Consulte o que o Aurélio chama de “o sentimento
do dever ou da interdição de se praticarem determinados atos, e a
aprovação ou o remorso por havê-los praticado”, aquela sinetinha com uma
luzinha piscante chamada consciência. Sempre que estamos prestes a cair na
perdição o Grilo Falante murmura: “Mas não tem alguma coisa estranha
aqui?” Pode ter certeza de que se você não é psicopata, sociopata nem
esquizofrênico, uma hora o grilo pula.
Só o
amor é grátis.
Mas
sempre haverá pensões de ex-mulheres, reclamações de esposas, piadas
sexistas de maridos, eternas cobranças de mães, ”mas-todo-mundo-tem”
de filhos e estatuto do idoso para me desmentir.
Amigo é pra essas coisas
22.junho.2001
— O que é que houve, meu camarada? Tu tá amuado, nem parece
o meu chegado Tonhão...
— Nem te conto...
— Aaaaaaah, não! Cê vai me dar licença, mas eu vou sentar aqui e ficar
contigo até tu abrir esse peito e contar tudinho que tá te azucrinando.
Quem sabe eu posso te ajudar? Às vezes só falar já alivia. A gente somos
ou não somos camaradas?
— Somos... Claro! Mas é que é coisa minha, cê sabe... Daquelas que a gente
num conta nem pro travesseiro. Cê tá me entendendo?
— Olha, Tonhão. Vamu fazer o seguinte: tu toma uma por minha conta. Traz
uma aí, Pará! Põe aqui pro Tonhão que ele tá na precisão. Valeu! Toma!
Vira! Isso, garoto! E então, deu prá esquentar? Tá melhor, num tá? Quer
outra? Pará, mais uma. E põe na minha conta, que eu tô podendo. Te contei,
Tonhão, que fiz um serviço numa casa de madame? Fiquei meio cabreiro
porque madame é muito bom na hora de encomendar, mas na hora de pagar é
outra história. Mas a perua pagou tudo, de uma vez, direitinho e gostou
tanto que já deu dica de outras colega dela prá mim visitar e ver se
descolo alguma outra bocada. Puxa, tua cara já melhorou. Viu só? Num tem
mágoa que uma água que passarinho não bebe não resolva...
— Tu deve de estar certo... E sabe o quê? Eu é que devo estar vendo coisa,
procurando chifre em cabeça de cavalo...
— Ih!... É coisa com comadre Nega, é?
— E o que mais haverá de me deixar desse jeito, homem? Aquela nega é minha
vida, tu sabe...
— E o que que houve?
— Tu conhece a Nega... Tem aquele jeitão despachado, cara de braba, mas a
gente se damos bem. Ela briga, reclama, mas quando escancara aqueles dente
e solta aquela gargalhada, alumia até noite sem lua.
— Pois então...
— Agora deu prá não sorrir mais. Nem xingar meus sapato no meio da sala
ela xinga.
— Hum...
— Tu sabe que com criança pequena em casa as coisa de casal muda um pouco,
né? Tem que esperar o Uoxinto dormir para a gente podermos vadiar... E às
vezes ele dorme depois de mim... É chato... Mas quando tudo dá certo a
gente tiramos a forra.
— Êta! Peraí um pouquinho... Pará... Mais aqui... Pronto! Vai, fala...
— Então... Aí no dia seguinte, enquanto faz meu café a Nega canta que é
uma beleza, faz festa no menino, essas coisa...
— ...Que tu é homem de saber fazer mulher ficar feliz...
— É... Aí essa semana o Uoxinto começou na escolinha e tem dormido cedo,
cansadinho o bichinho. Às vez eu chego do trabalho e ele já tá lá
conversando com os anjinho do céu, no maior ronco...
— ... e tu e a patroa em lua-de-mel...
— É... Mas aí é que ficou estranho, porque a Nega não se ri, não tá
cantando de manhã...
— Ih!...
— Um sujeito pode ficar com o coração calmo com uma coisa assim?
— Te entendo, te entendo...
— Acho que ela anda com saudade dos tempo de que era rainha da roda lá
prás bandas da Boca... Tu lembra como a Nega dançava bonito? Todo mundo
parava prá ver, dava gosto... Depois que a gente juntamos os trapo, nunca
mais... Eu nem num pedi. Ela mesmo que num teve mais ânimo praquilo. Mas
acho que agora tá sentindo falta... Quer brincar um pouco... Fica o dia
inteiro socada dentro de casa, cuidando de panela, roupa e menino, tadinha...
Às vez eu tenho pena... Fico pensando em levar ela prá dar uma volta na
Boca, rever os amigos, dançar um bocado...
— Tu tá doido? Perdeu a razão?
— Por quê!?
— Tu num sabe como anda a Boca por esses dias! Aquilo tá cheio de malandro
ordinário, mermão.
— É?
— E num é? Gente da pesada. Tu tá me entendendo? Ninguém respeita mais
ninguém. Num tem mais aquela coisa do nosso tempo, não. Ó, vou te dar uma
idéia, com todo respeito, porque te considero prá caramba, tu é meu
irmãozinho e sei que num vai ficar chateado com teu compadre aqui: Nega é
mulé jovem ainda, tá bonitona, mesmo depois de ter menino. Tô falando com
respeito, hein! Pois tu vai lá mais tua Nega e chega um otário metido a
malandro querendo tirar chinfra. Porque tu sabe que aqui todo mundo te
respeita. Nega é a mulé do Tonhão e num tem mais assunto. Mas lá... Ah,
meu irmãozinho, é tudo diferente. Eles acha que ninguém é de ninguém. Vai
por mim: tu vai te aborrecer. Vai entregar o ouro ao bandido. Claro que a
comadre vai fazer ouvido de mercador prás cantada barata. Mas o que que um
homem como tu ia fazer se passassem a mão na tua Nega? E hoje em dia,
neguinho só quer resolver questã no teco.
— É... tu tem razão... Mas como é que eu vou tirar este quebranto da Nega?
— Tu lembra do João Malé, aquele que vendia de um tudo aí pelas vielas?
Então, rapaz, de grão em grão a galinha enche o papo. Ninguém dava nada
pelo crioulo e ele guardando seus trocado... Outro dia abriu um bar ali
embaixo, perto da Esquina do Pecado. Coisa de muito luxo... Bom gosto que
num sei de onde aquele camarada tirou... Pois bem, fui lá outro dia com a
Wladislene. Música boa, só casalzinho, bem família... A gente dançamos prá
valer... Se divertimos prá caramba e num teve nenhum engraçadinho prá
mexer com ela, porque todo mundo tava acompanhado. O maior respeito,
percebe? É num lugar assim que tu tem que levar a Nega...
— Será que ela gosta?
— Claro, comadre Nega é mulé fina, sabe o que é bom...
— Isso é mesmo...
— Então... Olha tive outra idéia: Wladislene adora o teu moleque. Mesmo
que ela não fosse a madrinha dele ia adorar aquele garoto, porque ele é um
menino de ouro...
— Ele é mesmo uma coisa, né? Sabe que outro dia eu cheguei em casa com um
agrado prá ele e ele abriu correndo, deixou o brinquedo de lado e ficou
brincando com a caixa? Eu pegava o brinquedo, mostrava prá ele, mas ele só
queria saber da caixa. O moleque tem opinião que nem a mãe...
— A Wladislene adora o Uoxinto. Eu também tenho o teu menino em
consideração de filho. Você faz o seguinte: deixa o garoto com a gente,
vai se divertir com a comadre na casa do João Malé e depois... Ah, ah,
ah... Tu já viu o novo motel que abriu lá na estrada? O Alemão falou que é
coisa de responsa e que é baratinho, quer dizer, dá prá gente pagarmos sem
apertar muito, sabe? Tu vai lá, dá um trato na Nega e quero ver se ela
canta ou não canta...
— Cês ficam mesmo com o moleque?
— E prá que que serve os amigos? A gente temos que se ajudar, ué...
— Eu acho que a Nega vai adorar...
— Claro!...
— Puxa, tu é mermo um irmão. Num é à toa que a gente te escolhemos prá
batizar o menino...
— Ah!... Deixa disso que tô ficando encabulado.
— Vou falar com a Nega...
— E pode deixar que essa eu acerto que tu vai precisar de algum prás tuas
investida romântica. Num esquece de comprar umas flor prá ela... Um
vestido bonito...
— Tá, tá... Deixa eu ir que tu tá me enchendo de idéia... Valeu, mermão!
Té mais...
— Vai pela sombra... Tu tá vendo, Pará, como é que é essa vida? Tu fica aí
atrás desse balcão e vê tudo... Se eu não espremo este camarada, no que
que num ia dar esse assunto? Eu aqui crente que o papo com a Nega foi só
uma coisica à toa e ela já desgostando do Tonhão... Só me faltava essa...
Se eu num tomo uma providência, Nega e Wladislene qualquer hora dessa tão
descendo esse morro agarradas nos cabelo uma da outra. Essas mulé de hoje
em dia tão muito carente, se apaixona por qualquer coisa. Eu, hein!
Política de botequim
1º.junho.2001
— O Salgueiro vai descer.
— Me disseram que o Turano também.
— Por que que aquele povo tá correndo?
— Sei lá, mas não vou ficar aqui esperando para saber.
As lojas da Praça Saens Peña e adjacências baixaram as portas. Todo mundo
sabia: o morro ia descer.
Pânico! Mães foram buscar os filhos mais cedo na
escola. Pelo telefone, parentes e amigos recomendavam que a Tijuca fosse
evitada a qualquer custo. O zunzunzum alastrava-se como fogo pela cidade.
O policiamento da área foi reforçado, mas os comerciantes, temendo o pior
mantiveram seus estabelecimentos fechados. Quem não tinha outro jeito
passava pela Rua Conde de Bonfim agarrado à carteira e à bolsa e com olhos
na nuca, preparado para atirar-se ao chão ou sair em disparada mediante
qualquer ruído ou movimento suspeito. Nunca num só dia tantas pessoas
arranharam joelhos e mãos ao som do motor de um fusca velho.
A tarde do apocalipse acabou, vieram a noite e a madrugada, o dia
amanheceu e a Igreja de Santo Afonso ainda assistiu a passos, ouvidos e
olhos desconfiados desfilando pela vizinhança, apesar de nada,
absolutamente nada além de pequenos sustos, terem acontecido na véspera.
Os policiais continuavam de plantão. Surpresa: paz!
As investigações comprovaram que um enorme boato tinha acontecido. Só
mesmo uma população receptiva a tragédias e calamidades levaria a sério a
história de que uma comunidade pacífica como a do Salgueiro ia tomar o
asfalto de assalto. Apenas quem não entende nada de política de tráfico
pensaria que os chefões deixariam um evento destas proporções acontecer e
atrapalhar seus negócios.
— Eu sabia que só podia ser balela. Só liguei prá Glorinha e fui pracasa
mais cedo porque nunca se sabe, né?
— Eu também. Mas a gente nunca sabe direito o que se passa na cabeça dessa
gente... Ficam lá em cima só fazendo filho e pensando besteira... Mas
ainda bem que foi só história... Vamos ali tomar um cafezinho?
— Claro! E você, hein? Já escolheu seu candidato?
— Eu ia votar no Conde, mas depois do susto que passei ontem... O César
Maia é meio doido, mas, sei lá...
Discretamente, os jornais publicaram um trecho de um livro do prefeito que
sairia das urnas logo depois. Lá ele ensinava a arte do boato. Bastava
plantar em pontos estratégicos da cidade — nos botequins, é claro —
indivíduos pagos pelo mentor do rumor, que divulgariam a história,
recheando com citações de fontes seguríssimas.
— Olha... (pausa... uma olhada discreta para os dois lados... braço do
interlocutor entre os dedos...) Meu primo trabalha na PM, tá sabendo? Sabe
o que mais? Tão reforçando o policiamento aqui por essas bandas...
Descobriram um plano dos traficantes, xará... O morro desce hoje. Éééé,
mermão... Eles querem mostrar quem é que manda. Tá me entendendo? Isso
aqui vai virar uma praça de guerra, cumpadi. Se eu fosse tu, fazia que nem
eu: tomava a saideira e sartava fora.
— Ô, Zé! Põe um pingado aqui prá mim rapidinho, que eu não tô a fim de dar
bobeira por essas bandas hoje não. Tu não sabia? Tão falando que o
Salgueiro vai descer. Vai ser um auê dos bons...
Sempre fui fascinada por botequins. Cada um tem seu espírito, sua
identidade, sua própria dinâmica e porcaria. Não são apenas fontes de
boatos ou local barato de lazer. São, antes de tudo, bom termômetro do
ânimo da sociedade. Parar e ouvir o que se passa nestes redutos de
carioquice é tema de arte e entretenimento.
Junto com o maço de cigarro hoje no balcão, peguei uma das melhores
análises sobre o problema energético e demais questões que envolvem o
governo atualmente. O cabra nordestino que dirige a bodega foi se
entusiasmando com o meu interesse, as veias do pescoço crescendo e a cara
ficando vermelha. Dava gosto de se ver. Foi lá no rádio e quase tirou a
voz do Falamansa.
A cozinheira veio ver o que se passava com o chefe e
também palpitou duro. O cara que estava fazendo hora numa das mesas da
calçada espichou o ouvido, cuspiu o palito que vadiava no canto da boca e
soltou o verbo. O outro não tirou o olho do copo de cerveja quente, mas
assentia martelando com a cabeça. De repente, já não se podia distinguir o
que se falava, tamanha era a vontade e a necessidade de todos e de cada um
daqueles indivíduos de expressar a sua revolta . Tempo quente num Rio
abaixo de 20º C.
E ainda tem quem defenda a tese de povo inconsciente e alienado... Pois
sim! Será que ninguém reparou que nas últimas eleições, quando os
escândalos ainda não tinham tomado estas proporções que vemos nos últimos
tempos, nem tinham atingido direta e claramente o orçamento doméstico, as
urnas já mostravam a insatisfação popular com o governo?
Pena que o tempo dos grandes líderes tenha se acabado. Os botecos da
Cidade Maravilhosa já estariam prontos para sair às ruas com suas tropas
rotas, bêbadas e vadias.
Fiat Lux
25.maio.2001
Minhas astrólogas de plantão informam sobre um posicionamento planetário
que influencia nas comunicações e eu, que fico aqui tentando decifrar este
astrologuês, pensei com os meus botões sobre o impacto que os meios de
comunicação causaram neste caso da quebra do sigilo do painel eletrônico.
Porque uma coisa é ler no jornal que fulano disse isso e aquilo, outra
coisa é ver a edição sucessiva de imagens deste mesmo fulano negando
veementemente e depois admitindo seu quinhão de culpa.
Se nenhum golpe espetacular de última hora ocorrer — como a abertura das
burras do Príncipe das Trevas no caso da CPI da corrupção — entre o
momento em que escrevo e o momento em que você me lê, já estamos
respirando um ar mais puro por essas bandas.
Toninho Malvadeza e seu moleque de recados anunciaram que vão deixar o
Senado antes que seja decretado o óbvio: a cassação.
Tudo bem que queríamos vê-los sair escorraçados e que este imbróglio cabe
como a história do imposto de renda para Al Capone; é óbvio que o ideal
seria a inelegibilidade, mas, a tomar como amostra os que foram prestar
solidariedade ao ex-dono do país, parece que a ameaça de retorno do demo
foi esvaziada até em seu reino nagô. Até os orixás lhes voltaram as
costas, apesar das lágrimas e rezas da quituteira Dadá, da pisada no
tomate de Zélia Gattai e da prova dada pela Gal de que sob uma vasta
cabeleira morena também pode habitar uma burrinha (tm Jards Macalé).
O próximo capítulo? Posso ser a otimista prosa de plantão, mas estou
apostando minhas fichas no resultado das urnas.
Voltando ao aspecto planetário das comunicações, parece que ele não
funciona ampla, geral e irrestritamente. Essa história de "mobilização
cívica" vendida principalmente pela TV não está sendo comprada assim tão
fácil. Tenho conversado com legítimos espécimes do povo — aquele tipo de
gente do qual adoramos nos diferenciar quando afirmamos coisas como "nós
(a elite) temos consciência disso, mas o povo..." — e a turma está, sim,
consciente de que há algo de muito podre na questão do apagão e do
racionamento.
Aliás, a desconfiança anda em alta quando se trata de qualquer coisa vinda
desse (des)governo. Até mesmo quando não deveria. Outro dia ouvi de uma
senhora de idade: "Imagina se vou a um posto de vacinação tomar essa coisa
pra gripe que eles estão falando para a gente tomar. Eles pagam uma
aposentadoria miserável, não fazem nada para melhorar hospitais e não tem
remédio pra gente. Imagina se vou deixar que enfiem uma agulha no meu
braço e ponham sei lá o quê prá dentro de mim. De graça!? Só pode ser
coisa pra matar logo de vez."
Esse é o tipo de expectativa que o Príncipe das Trevas está imprimindo na
alma da nação. E agora resolveu que quer rasgar a Constituição para
colocar nas ruas estas sobretaxas absurdas. Só tiro uma coisa boa dessa
história. Descobri que, mesmo vivendo uma vida praticamente espartana, sou
rica, porque consumo mais de 200kw/h por mês. Talvez no próximo mês eu
deixe de pagar a conta de luz e vá gastar minha recém-descoberta fortuna
visitando todos os países que nosso presidente já visitou às nossas
custas.
Não seria ótimo se eles resolvessem ouvir suas próprias teorias, seguissem
radicalmente seus princípios e retirassem a figura de governo e Estado
definitivamente de nossas vidas? Porque a cada dia que passa, fico mais
inclinada a acreditar que quando e onde o governo não interfere, o país
vai muito bem, obrigada. Ou seja, se ele não consegue fazer o mínimo que
considera que lhe cabe, afinal que diabos ele está fazendo lá?
Tudo bicho
06.abril.2001
O médico psiquiatra, psicoterapeuta e escritor Flávio
Gikovate em um artigo que li recentemente diz que não gosta das
comparações feitas entre o comportamento dos animais e o da espécie
humana. Falava isto a propósito do cio, que contrariamente aos de outras
espécies seria contínuo nas mulheres. Ele alega que as mulheres atraem os
homens durante todo o ciclo menstrual, mas isto não significa que esteja
disponível para o sexo durante o mesmo período. Fiz conexão imediata com
um artigo da revista Veja, em que uma cientista inglesa (meu lado
politicamente incorreto grita: claro!) afirmava que a maioria das mulheres
se satisfazia com não mais que uma sessão de sexo por mês. Assim, aos
homens caberia o desejo constante ao farejar o cio ininterrupto das
mulheres em idade fértil. Para elas ou tanto faz ou de vez em quando está
bom. Eu, uma reles psico-nada, penso cá com meus botões: caramba!
Pois meu queixo encosta no colo. Ainda hoje, se estou sempre a fim, pareço
um homem, e não estar a fim todo dia é coisa de mulher. Uau! Mas sabe o
que penso sobre esta argumentação de ter consultório cheio de mulher
correndo atrás de orgasmo? Que ela correu pra vala com a chegada do Viagra.
Se os homens são tão poderosos assim e são as mulheres as que têm dor de
cabeça, por que a pilulinha azul virou coisa tão desejada? Hein? Hein?
Hein? Sexo é instinto sim, só que carregado de problemas culturais. E,
infelizmente, as interdições culturais sempre foram mais pesadas nos
ombros femininos. Basta comparar a questão das anoréxicas com a das
frígidas. Comer virou pecado, aí aparecem vários problemas. Mas se a gente
abstrair a culpa vai ver que tudo o que é instinto vem acompanhado de
prazer (pelo menos para quem é saudável). Sabia que a rainha da Inglaterra
foi educada para não fazer xixi? Pelo menos durante as cerimônias
oficiais, que podem demorar de alguns minutos a um dia inteiro.
Durante o carnaval, tentei colocar parte da leitura em dia. Muita coisa
para estudar e pesquisar, mas muita curiosidade também. Muitos outros
artigos interessantes me caíram nas mãos. Entre eles, um sobre bajulação e
outro sobre auto-estima. Já confundi tudo e não é mais possível citar
fontes, entretanto encontrei pontos de contato nestas duas matérias. Então
vou comentar minhas conclusões e não os artigos em separado. Havia uma
comparação com a sociedade animal mais próxima da humana, a dos
chimpanzés. Os chimpanzés têm um sistema hierárquico bem definido. O
chefão anda ereto, demonstrando poder. No cérebro destes espécimes
encontram-se altas taxas de serotonina (sei lá como se mede isto). Os
abaixo dele andam meio curvados diante do chefão, mas se erguem diante dos
subalternos, e assim sucessivamente. A serotonina é diretamente
proporcional ao status. Para conseguir aceitação, favores e outras
coisitas, os subalternos bajulam o líder, de diversas formas (familiar,
não?). Acontece que testes feitos em ambientes em que o macacão via o
grupo e o grupo não via o macacão (e portanto não podia demonstrar seus
"respeitos") provaram que a segurança do líder vai-se deteriorando.
Tem mais: os outros macacos sabem o seu devido lugar, porque o líder já
mostrou quem manda. Cada macaco no seu galho meeeeesmo. Aí entra a
auto-estima. O sub-líder sabe que não pode lutar com o líder, então abaixa
a cabeça. Preservação pura e simples. A analogia citada era discutir
física com Einstein ou comprar uma briga com o Tyson. Quem tem baixa
auto-estima é porque passou por experiências que demonstraram que não é
capaz de determinado feito, então não querendo repetir a experiência de
fracasso (ou arriscar a vida), não volta a tentar. A diferença (e esta
conclusão é minha) é que a gente se fecha por causa de uma experiência e
não vê que as situações nunca são realmente idênticas e que nós mesmos
mudamos e podemos ser capazes hoje do que não éramos no passado.
Mas tanto lenga-lenga é para dizer que instinto de preservação e
satisfação com o poder (para desfrutar da melhor banana ou da primeira
classe nos aviões) é instinto, sim. No fundo, somos bicho. Só que
racionalizamos. E como a gente racionaliza estes instintos são outros
quinhentos contos.
Genética
24.novembro.2000
Numa época em que envergar um uniforme de normalista era
motivo de orgulho familiar ela, ao contrário de todas as colegas, é
reprovada nos exames de admissão. Não se dá por vencida e convence a
família de que escola boa mesmo é aquela bem longe de sua residência e
assim todo dia sai uniformizada e cheia de livros e caderno embaixo do
braço rumo à escola em que jamais pôde matricular-se. É muito simpática e
com jeito e manha consegue enfiar-se nas classes como ouvinte. Muitos
acreditam que ela é mais uma aluna e assim ela se comporta. Estuda para as
provas, embora não possa realizá-las, participa das atividades, sai com as
meninas do Instituto, namora um dos rapazes do outro colégio...
E passam-se quase três anos e a mãe agita-se para comprar o anel de
formatura, costurar o vestido do baile, cobra os convites para distribuir
entre tios e avós. E cada dia, ao contrário da expectativa geral, ela
torna-se mais calada, mais pálida, suas olheiras crescem. Ninguém sabe que
o seu mal é a iminência da farsa descoberta.
E o namorado finalmente pergunta a ela se pode pedir oficialmente sua mão
ao sogro na noite da formatura. Ela diz que sim com um sorriso amarelo que
ele, homenzinho frágil e inseguro, interpreta como dúvida e vai embora
cabisbaixo e desancado com a porta que ouve bater às suas costas. A mãe
fica aflita porque ela está demorando muito para sair do banheiro. Chama e
não tem resposta. O irmão implicante diz que quando casar passa, mas a mãe
o obriga a pôr a porta abaixo. E ela está caída no chão com algum sangue a
sua volta. Coitada! Sequer na sua tentativa de suicídio obtém sucesso, já
que não foi forte o bastante para aplicar a pressão necessária à gilete
sobre os pulsos.
Os pais concordam que é melhor que ela passe algum tempo na fazenda dos
avós. Esgotamento nervoso, dizem a todos. As provas finais foram
cansativas demais. Não, ela não vai participar da cerimônia de formatura,
precisa descansar. Claro que ela não vai exercer a profissão. Vai casar-se
no próximo mês de maio e o marido proibiu. A família dele é muito
conservadora com estas coisas, você sabe, e nós concordamos que lugar de
mulher é em casa. Veja só, eu nunca trabalhei fora e nunca me faltou nada.
Ela vai fazer um casamentão. Homem tem que ser firme mesmo, que esta coisa
de mulher saindo todo dia para o trabalho não pode dar em boa coisa. Para
falar verdade, foi ele quem sugeriu que ela não participasse da formatura.
Para que ficar se expondo assim se já é comprometida mesmo?
E casam-se e ela surrupia da carteira do marido até para os alfinetes e
têm filhos e os tempos mudam. A filha quer ser médica e quase perde os
cílios virando noites sobre livros e apostilas. Talvez algumas coisas
sejam genéticas. Bomba por três anos consecutivos. E quando mais ninguém
aposta nela, chega a notícia de que fora aprovada em uma universidade no
interior do estado.
Medicina, claro! Ela é muito esforçada e inteligente, é que fica muito
nervosa com esta história de prova, mas desta vez, graças a Deus, deu tudo
certo, ela estava mais calma, a gente fez tudo pra que ela ficasse
tranqüila, até uma rezadeira a gente visitou, acho que era mal-olhado, mas
agora fico sossegada, esta minha filha tem um futuro brilhante pela
frente. Mas qual foi mesmo a universidade? Peraí! Lá não tem faculdade de
medicina, só de enfermagem. Claro que eu tenho certeza!
Ontem os veteranos de enfermagem estavam aplicando trote nos calouros e
ela estava entre eles. Eu vi e ela me viu. Não, não vou ligar para contar.
Deixa ela viver a ilusão que quiser, caramba!
Menina, eu não sabia que era assim. Imagina que o trote foi tão violento,
usaram uma mistura tão brava para pintar os calouros que ela teve uma
alergia fortíssima e foi parar no hospital. Ficou internada três dias. Uma
coisa! Estes monstros deviam ser presos. Tadinha! Ficou tão traumatizada
que não quer voltar. Pois é, depois de tanto esforço, né? Mas a gente no
papel de mãe tem que compreender e apoiar. Ela não quer nem mais tocar no
assunto, diz que não quer mais pensar nisso. Eu morro de pena...
Sabe aquela sua amiga que estava fazendo enfermagem comigo e disse que
estava fazendo medicina? Então, encontrei ontem com ela na rua. Estava
toda de branco e até pensei que ela tinha conseguido finalmente cursar a
faculdade que queria, então perguntei onde ela estava trabalhando. Ela
está cortando cabelos no salão da Lili.
Costurando idéias
25.agosto.2000
Lia num dos contos mínimos de Heloisa Seixas sobre uma
performance que lhe teria causado tremenda impressão.
Durante uma festa, vários jovens entram no salão carregando, cada um, um
banquinho. Depois de conseguir captar a atenção dos presentes com tão
inusitada aparição, revezam-se sobre seus respectivos bancos, declamando
um belíssimo texto sobre a arte e a imortalidade. A cronista ficou
especialmente impressionada com a última fala: "Todos nós devemos
expressar a arte que carregamos em segredo. É essa nossa pequena
imortalidade. Por isso, convido cada um de vocês a, pelo menos uma vez na
vida, seja de que forma for, tomar coragem e subir no seu próprio
banquinho."
Penso também na necessidade do ser humano de deixar seu rastro, fazer a
diferença, marcar presença de alguma forma. Alguns através de sua
descendência, outros através de sua arte, e ainda os que se submetem a
verdadeiras vexações em troca de seus minutos garantidos pelas profecia
Andy Warhol.
Como sou mais pop que intelectual, lembrei da personagem de Michael J. Fox
no primeiro episódio da trilogia De Volta para o Futuro. Guitarrista
talentoso e ousado, teme mostrar sua arte e abomina uma possível rejeição
até que encontra, no passado, o pai — estereótipo da frustração e miséria
espiritual no presente — ecoando suas palavras sobre a própria arte. Claro
que na fita ele "sobe em seu banquinho" durante um baile de formatura.
Outro dia conversava com uma amiga sobre seus inegáveis talentos e ela
contava de sua timidez, sua modéstia... Quanto desperdício! É até covardia
privar a humanidade de tanta beleza, estilo e riqueza, reservando-os
apenas para os amigos. O mundo merece conhecê-la.
Em linguagem empresarial usa-se o termo limite de competência. É quando um
funcionário vai sendo promovido até o ponto em que não consegue realizar a
função e é demitido. Como saber a altura do nosso banquinho? Como saber
quantas pessoas permanecerão na sala quando começarmos a expor nossa
pequena imortalidade? Como sabermos se somos um participante de No Limite
ou um Gilberto Gil? Não há respostas dentro de nós. Para isto dependemos
da impressão que causamos no outro. E talvez, como para Van Gogh, o outro
só chegue depois de sua partida. São sementes ao vento...
Talvez a sementinha atravesse o Atlântico e lá no Velho Continente toque
um galho de sua árvore genealógica? Quem sabe se será capaz de germinar em
terreno árido, hostil? Qual será o limite de sua competência? Suba no seu
banquinho, lance sua semente e enfrente com galhardia a resposta, quiçá
silenciosa, do tempo...
Brasil
21.julho.2000
A roda de samba no céu está cada vez mais animada.
Será que desta vez o LuxemBurro cai?
No bar ontem à noite muitos comemoravam os gols do Paraguai. Isto existe?
Se depender do que foi dito na entrevista ao Jô, Luis Estevão merece, no
mínimo, a canonização.
Todo mundo acha o último CD da Marisa Monte inferior aos anteriores, mas
ele continua vendendo como água e os shows estão lotadíssimos.
Eu, Tu, Eles e Regina Casé foram premiados.
O show de Sandy e Júnior reproduz as quatro estações, com cheiros e
temperaturas típicos. Será que eles usaram como parâmetro terras tropicais
ou climas temperados? A dupla transformou-se em Midas. O João Gordo disse
que quer comer a Sandy. Se ela der uma de Alanis Morissette, deixar o
virginal posto de modelinho infanto-juvenil e trepar com o rato de porão,
juro que vou passar a gostar dela. O IMDB fazia um link da Sandy no filme
dos Trapalhões com uma atriz pornô. Quem dera!
O gelo cobre o topo do estado do Rio.
FHC jura que assinou sem ler.
O sol está pálido e eu também.
Estão doando computadores para as favelas. Os excluídos chegam à Internet.
Os níveis de educação crescem, aumenta a estatura média e dilata a
expectativa de vida.
Não leio ou escuto mais sobre Tiazinha, Feiticeira ou Carla Perez. Acabou
o Império da bunda?
Monique Evans foi demitida do Shop Time e seu pastor gritou Amém.
Mauro Ventura disse que seu delírio em busca da celebridade é encontrar
seu nome na Crônica do Dia. Acho que sou famosa e não sabia.
Alguém ainda lembra do Tiririca ou do Padre Marcelo Rossi?
Uma amiga ilustrou o livro de poesia para crianças da Elisa Lucinda. Outro
amigo está com uma belíssima exposição no Centro Cultural Cândido Mendes
em Ipanema. O site de outra amiga está sempre na imprensa com comentários
elogiosos. E viva o talento! "Tenho inveja de mim pelos amigos que tenho."
O calçadão de São Conrado está desmoronando com a ressaca. O Havaí é aqui.
Explodem bueiros pela Zona Sul. A CEG esburaca as ruas do meu bairro.
O Maior do Mundo está sendo reformado. Está ficando colorido e, dizem,
mais confortável. Quando vão contratar os Ghost Busters para expulsar a
final de 50 de lá?
Gianne Albertoni escorregou e caiu na Semana Barra Shopping de Estilo.
Minha avó sempre dizia que saco vazio não pára em pé.
Quero nome, endereço e telefone do pai de santo do Pitta.
O Brasil lidera as pesquisas de câncer do Projeto Genoma. Cientistas
brasileiros conseguem isolar a bactéria que destrói os laranjais. Pequenos
milagres dos obstinados.
Quem está disposto a acompanhar as humilhações de No Limite? Quem deixa de
ver as biografias e documentários do People & Arts para ver o Jogo do
Milhão? Quem põe lenha na fogueira da briga de números entre Gugu e
Faustão? Quem escondeu o Cazé e o Serginho Groissman? E pior, quem reclama
de tudo isto e continua engrossando o IBOPE destas anomalias?
Uma Gabi desesperada diz que quer colocar um piercing lá. Está difícil
lidar com Vera Fisher e Carolina Dieckman.
Luciana Gimenez não quer ninguém se metendo em sua vida pessoal.
Estão relançando o disco do Tom Zé com um olho cego na capa.
Desconfio que o trio que canta Dancin'g Days não é composto por filhas,
mas sim clones da Baby.
A Petrobrás faz uma belíssima propaganda institucional que passa no
intervalo que sucede a notícia de mais um enorme vazamento de óleo.
Não sei da nacionalidade de Deus, mas Ele tem muito humor.
O Diabo e sua Filha
14.abril.2000
A idéia veio como um raio fulminante, o tipo de inspiração
que somente ele, o Diabo poderia ter.
Ele a criou esteticamente perfeita, um corpo fenomenal onde qualquer
mortal jamais poderia encontrar qualquer defeito, um rosto em que
cintilariam olhos convidativos, dentes perfeitamente alinhados, lábios que
implorariam por serem beijados. Isto despertaria a LUXÚRIA, faria com que
muito quisessem vê-la, tocá-la, ser como ela a qualquer preço. Claro que
isto não era tudo. Beleza seu concorrente era capaz de criar a todo
momento. O que fazia esta criatura tão especial para seus maquiavélicos
propósitos é que ela seria carismática, mas não talentosa; esperta, mas
não inteligente. Contudo a excelência de seu plano ia além, muito além...
A atenção conseguida por aqueles que a admirariam seria ínfima perto da
IRA que suscitaria nos que encontrariam nela pouco além de uma beleza
cegante. Por não disporem de seus atributos, se corroeriam de INVEJA e,
sem perceber, na tentativa desesperada de destruí-la, falariam dela sem
parar, atiçando a curiosidade de quem ainda não a conhecia, transformados,
sem querer em seus maiores agentes promocionais.
Estes, em sua SOBERBA, alardeariam suas próprias qualidades, em detrimento
das da filha do Demo. Louvariam as vantagens da GULA, em repúdio à imagem
esguia da musa do Capeta. Pregariam a PREGUIÇA como solução contra seu
corpo bem delineado. Cantariam as maravilhas da AVAREZA em detrimento aos
rios de dinheiro que ela ganharia.
E então, todos esqueceriam de cuidar da própria vida, de ouvir boa música,
de ir ao teatro ou ao cinema, de conversar com os amigos sobre assuntos
realmente importantes, de ler um bom livro. Estariam todos preocupados em
saber qual foi a última declaração da filha de Sam para criticar sua
boçalidade com argumentos mais convincentes. Esqueceriam de recomendar um
bom filme ou um bom CD e viveriam em função da diabólica Mídia-girl.
O fascínio que ela provoca
24.março.2000
Não se pode dizer ainda, nestes dias de março, que a temperatura esteja
amena. Por isto fiquei tão intrigada com aquela negra camiseta de mangas
compridas sob o jaleco da escola técnica.
Ele e eu estávamos andando em direções opostas e, à medida que se
aproximava, aumentava o contraste entre a estampa de caveiras e seu rosto
imberbe. Os óculos de cdf davam-lhe ares de moleque punheteiro, daqueles
que veneram as tiazinhas, enquanto decoram fórmulas de física.
Por que diabos este mancebo estaria desfilando tão tenebroso figurino
pelas ruas quentes do Maracanã?
Fiquei pensando no fascínio que a morte exerce sobre os jovens. Eles
crescem matando inimigos em seus vídeo games, fazem a festa de produtores
dos Pânico e Eu Sei O Que Vocês Fizeram... da vida e idolatram grupos de
rock que flertam com o trágico. Por quê?
Talvez porque saibam que o quanto o assunto incomoda os que já foram
beijados pelo anjo da morte — nós, os adultos — e em sua necessidade de
chocar para atrair atenções, encontrem aí um terreno fértil para
descarregar sua rebeldia sem causa.
Não posso deixar de pensar nesta doce criaturinha que habita o quarto ao
lado e hoje molha suas plantinhas com tanto carinho, insiste em ter um
bichinho de estimação e puxa conversa com quantas crianças cruzem o seu
caminho. Será que um dia vai querer ostentar a morte em suas vestes? Com
que tipo de estranho serei obrigada a conviver daqui a uns dez anos?
Uma vez ela me disse que preferia quando eu era bem pequena e ela era dona
da minha vida e respondi que ela não queria uma filha, mas uma boneca.
Será que hoje quem brinca de mãezinha sou eu?
A
Camiseta Furada
15.fevereiro.2000
Qual de nós não tem ou teve aquela camiseta bem deformada, super
confortável, com um furinho safado e que a gente insiste em usar em casa,
quando ninguém está vendo?
A gente chega com um mau humor daqueles, depois de um dia de cão e ela nos
espera e nos abraça e nos faz esquecer que há um mundo hostil lá fora. A
gente briga com o namorado, discute com a mãe, engole mais um sapo do
chefe e, antes de pegar a caixa de chocolate, veste a camiseta. O pneu
furou logo depois que desabou a maior chuva dos últimos tempos e não parou
ninguém para lhe ajudar a trocá-lo? Então você sonha em chegar em casa,
tomar um banho bem quentinho e vestir a camiseta.
Mas tem um dia que você acorda e não se anima a sair da cama. Dentro de
sua inseparável companheira, descobre uma desculpa para dar lá no
escritório. Já é hora do almoço, mas a fome não vem. Você acha uma boa
pedida mergulhar em um pacote de chocookies enquanto a sessão da tarde lhe
faz companhia. Sabe aquele furinho? Você acha graça em pensar que grande
do jeito que está pode ser considerado uma espécie de ar condicionado. O
toque do telefone é desagadável, mas você prefere deixar tocando a ter que
ouvir alguém do outro lado da linha. Por falar em linha, que linha é esta
pendurada aqui? Ih! Quando você puxou veio junto metade da bainha frontal.
É, a companheira velha está nas últimas. Bom poder reparar nela. Enquanto
faz isto não repara em você.
Pois é, vocês já devem ter percebido onde quero chegar.
Primeiro, uma camiseta destas pode ser um conforto e tanto, a menos que
você não queira mais tirá-la do corpo. Vamos nos desmanchando com ela. A
única diferença é que o fim dela é o lixo ou, na melhor das hipóteses,
virar pano de chão. Este é o seu destino? Com certeza você já teve um
amigo camiseta-velha. Com certeza você já teve dias camiseta-velha e
aposto que só
melhorou quando resolveu tomar um banho, vestir uma roupa decente e passar
um batom. Sair de casa é opcional, mas ajuda estar com pessoas ao invés de
estar com malhas de algodão.
Outra
atitude recomendável é jogar este troço fora o mais rápido possível. Sabe
por quê? Dá uma olhada no espelho e repara se atraente é uma boa descrição
do que vê. Sabe aquela caixinha de chocolate, o chocookie, a sessão da
tarde? Vamos trocar por uma maçã, uma saladinha e um cinema? Ninguém gosta
de um espantalho. Nem você. E se você não se cuida, não se gosta, quem
fará isto por você? Apenas aquela velha (amiga) camiseta que lhe dá
conforto momentâneo, mas quer lhe levar junto com ela para o lixo.
Sempre alerta! As camisetas velhas são uma tentação perigosíssima!
Conversa brasileira
10.setembro.1999
João
deixou de lado o CONTROLE REMOTO da TV A CABO contrariado por ter que
abandonar sua excursão pelos CANAIS DO MUNDO
INTEIRO.
— Ô, Maria! Onde é que você escondeu o raio do meu aparelho? — gritou para
a mulher, uma das 10.000 PESSOAS NO PAÍS COM
TELEFONE CELULAR — Comprei o seu para você parar de mexer com o meu —
resmungou.
— Tá aí em cima da estante, do lado do VÍDEO CASSETE...
— Alô! Oi, Pedro... Ah, pois é, o telefone aqui de casa agora vive
ocupado. Minha caçula passa o dia inteiro fazendo PESQUISAS NA INTERNET.
Maldito COMPUTADOR! Mas sabe como é, são os trabalhos da FACULDADE. Eu já
disse para ela que este negócio de Odontologia não está com nada, agora
que O NÚMERO MÉDIO DE CÁRIES POR HABITANTES NO BRASIL ESTÁ CAINDO TANTO...
Exatamente... E a conta de luz e telefone? Um escândalo! Não sei o que
aconteceu aqui em casa que os valores dobraram... Isso mesmo! Ainda ontem,
na FILA NA PORTA DO RESTAURANTE, eu estava comentando com o sujeito que
estava na minha frente: isso não pode continuar do jeito que está... É uma
pouca vergonha... A crise tá braba... Mas eu estava mal humorado, sabe?
Fiquei UM TEMPÃO PARA ACHAR UMA VAGA PARA ESTACIONAR O CARRO NO SHOPPING.
TUDO LOTADO... Durante o jantar acabei me acalmando, porque afinal eu
tinha combinado de fazer uma graça com a patroa num motelzinho, mas quase
desisti, porque também tinha fila... Sabe como é esse povinho aqui, né?
Depois que inventaram esta história de CARTÃO ELETRÔNICO, HOME BANKING,
BANCO PELA INTERNET, e AS FILAS DOS BANCOS ESTÃO QUASE EM EXTINÇÃO,
resolveram inventar outros lugares para fazer fila... Maria? Ah, vai muito
bem, sim... Está toda contente porque arrumamos uma empregada para dar uma
força com os serviços da casa. Só não me conformo é com esta coisa de
agora EMPREGADA DOMÉSTICA TER DIREITO A CARTEIRA ASSINADA, FÉRIAS E OUTROS
DIREITOS TRABALHISTAS... Quando minha família veio do Norte e minha mãe
trabalhava em casa de família não tinha essa moleza, não. Ela trabalhava o
dia inteirinho sem hora para sair, enquanto meu pai ia para a obra... É,
sinto falta dos velhos... Eles deram um duro danado para eu poder estudar
e ser alguém na vida... Adiantou o quê? Tá certo que eu tenho este
apartamento que é próprio, mas isso não é vantagem, 60% DOS BRASILEIROS
ASCENDERAM SOCIALMENTE NAS ÚLTIMAS DÉCADAS e é natural que EU TENHA MAIS
ESTUDO QUE MEUS PAIS E MENOS QUE MINHAS FILHAS... Também naquela época A
EXPECTATIVA DE VIDA DO BRASILEIRO ERA BEM MENOR, né? Ainda bem que eles
puderam ver a beleza que ficaram as meninas... Não sei o que acontece, mas
ESTA GAROTADA CRESCE TANTO HOJE EM DIA. Sabia que as duas estão mais altas
que eu e a mãe? Outro dia quando fomos lá na cidadezinha onde eu nasci,
todo mundo ficou bobo. Ah, AQUILO TÁ MUITO MUDADO... Antigamente era tudo
casinha simples, o povo andava de charrete e cavalo, no máximo de
bicicleta. Agora quase todas as casas são de tijolos e quase todo mundo
tem moto ou carro. Tinha até um engarrafamentozinho na praça... Isso aqui
não tem jeito, não... É isso mesmo... Eu tava vendo aquele filme que
concorreu ao OSCAR... Como é mesmo o nome? Não, não é O QUATRILHO... Não,
O QUE É ISSO COMPANHEIRO é aquele que fala dos tempos da FALECIDA
DITADURA... É aquele pelo qual a FERNANDONA também foi indicada... CENTRAL
DO BRASIL! Isso mesmo... Pois é, aquilo ali mostra bem como é isso aqui,
aquele bando de analfabetos... Maria está envolvida naquele PROJETO DE
ALFABETIZAÇÃO DE ADULTOS, você sabe... Ela diz que OS ÍNDICES DE
ANALFABETISMO DO PAÍS TÊM DIMINUIDO MUITO, mas não sei não... Ah é, ela
gosta muito de se envolver com este tipo de coisa. Ela trabalha num
PROJETO SOCIAL COM AS CRIANÇAS DE COMUNIDADES CARENTES. Uma doidice... O
país precisando de tanta coisa e ficam ensinando MÚSICA E ESPORTE PARA
ESSA GAROTADA... Aí, ao invés dos meninos se divertirem soltando pipa e
brincando nas ruas, ficam sonhando em participar de jogos internacionais.
Aí dá no que dá, né? Lá nos JOGOS PANAMERICANOS, o BRASIL fica só EM
QUARTO LUGAR NO NÚMERO DE MEDALHAS e aparece um monte de EX-CRIANÇAS
CARENTES VIRANDO ESTRELA DO ESPORTE... Vê se pode? Imagina que tem até um
projeto de festa de debutantes para aumentar a AUTO-ESTIMA das meninas.
Você agüenta uma coisa dessas? Auto-estima prá que? Peraí... Julinhaaa,
abaixa este som... Oi, desculpa... É que a Julinha adora ouvir música alta
e quase me deixa louco. É o dia inteiro isso. MILTON, GIL... Depois que
eles ganharam o GRAMMY a garotada descobriu estes aí... Aí CHICO, DJAVAN,
TOM vieram no reboque. Sabe como é, né? Até de JACKSON DO PANDEIRO e LUIZ
GONZAGA eles gostam. MISTURAM TUDO e depois põem nomes estranhos como
mangue bit, forrock... Mas ela cai mesmo de amores é pelo CAETANO...
Aquele lá é outro. Agora deu para EXCURSIONAR PELO EXTERIOR, DANDO UM
MONTE DE ENTREVISTAS E FALANDO MARAVILHAS DO BRASIL. Parece que não lê
jornal... Aí OS SHOWS LOTAM, né? Virou moda... Agora OS ARTISTAS
BRASILEIROS VÃO LÁ FORA, jAPÃO, ESTADOS, EUROPA E ARREBENTAM. É... Isso
vai de mal a pior... Tem jeito, não... Outro dia eu estava correndo na
PRAIA, resolvi ir ver o PÔR-DO-SOL NO ARPOADOR. Parou um cara perto de mim
e a gente acabou batendo um papo. Era gringo. Ele estava encantado com as
BELEZAS DO BRASIL. Coitado, nem imagina o que é isso daqui... Disse que
está pensando em mudar de vez prá cá por que nunca viu uma GENTE TÃO
ALEGRE, LUGARES TÃO LINDOS... PARAÍSO TROPICAL. Pois sim! O cara estava
deslumbrado com SAMBA. E isso lá é música de gente? O SUJEITO SAI DO
TRABALHO E PÁRA NA ESQUINA PARA BEBER CHOPE, BATER PAPO E TOCAR PAGODE COM
A RAPAZIADA. LUGAR NENHUM DO MUNDO TEM UMA COISA DESSAS. É por isso que
este país não anda. E ele ainda veio me dizer que AS MULHERES BRASILEIRAS
SÃO AS MAIS LINDAS DO MUNDO. E eles lá, com aqueles mulherões enormes...
Tá certo que alguém precisa dar de comer para aquelas modelos
urgentemente, mas nem tudo é perfeito, né? Só um instantinho... Mariaaaaa,
o MICRO-ONDAS tá apitando, já deve estar pronto... Olha, quem inventou
esta história de emancipação feminina e direitos da mulher devia ser
executado em praça pública. Maria não pára mais em casa. É o tempo todo
envolvida com esta história de CIDADANIA, DEFESA DOS DIREITOS DO
CONSUMIDOR. Um saco! O pior é que A CADA ANO DOBRA O NÚMERO DE PESSOAS QUE
VÃO PROCURAR AJUDA JUNTO A ÓRGÃOS COMO O PROCON. Eles perturbam tanto que
85% DAS QUEIXAS FEITAS SÃO RESOLVIDAS A FAVOR DO CLIENTE. Não há quem
ature uma coisa assim... Essa turma com que a Maria anda é louca... O
pessoal está achando que É HORA DE ARREGAÇAR AS MANGAS, PARAR DE RECLAMAR
E FAZER SUA PARTE, SEM ESPERAR QUE O GOVERNO RESOLVA TUDO. Tudo doido...
Eles ficam espalhando estas idéias por aí e acabam
convencendo todo mundo... Porque sabe como é brasileiro, né? É só ter uma
tragediazinha ali na esquina que neguinho corre para recolher e distribuir
mantimentos e roupas. Que SOLIDARIEDADE, que nada! É falta do que fazer
mesmo. Brasileiro só é solidário no câncer... Escuta... Esta conversa tá
muito boa, mas vou ter que desligar. A gente vai pegar um cineminha. Vou
ver De Olhos Bem Fechados. E só vou porque me disseram que de sexo, sexo
mesmo o filme não tem nada. Vê lá se eu ia levar a Maria para ver um filme
como Um Copo de Cólera! Filme brasileiro só tem sacanagem. Depois o
diretor ficou tendo que explicar que não houve penetração real durante as
filmagens, que o esperma era cenográfico. Cambada... Capricho têm os
americanos... Não é aquela coisa daqui de pegar um casal como a Júlia
Lemmetz e o Alexandre Borges, que são mesmo casados na vida real e botar
para rodar direto, não. Lá eles fazem tudo direitinho... Contrataram até
um instrutor para ensinar o Tom Cruise e a Nichole Kidman como é que se
faz sexo de verdade...
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CRÔNICA DO DIA. |
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