Por
Carla Cintia Conteiro

A melancia
27.agosto.2005

O inverno ainda não terminou no Rio de Janeiro e já estamos em pleno verão. É hora de desencavar minha adorada bolsa de melancia. É, eu tenho uma bolsa de palha em forma de meia lua que tem a estampa de uma melancia. Seu fundo é listrado de verde claro e escuro. A parte mais baixa da lateral vai de um verde mais escuro a um verde mais claro, chegando finalmente num verde quase branco. Depois, um lindo e vivo vermelho salpicado com pontinhos pretos que fazem as vezes de sementes.

 

Sair com essa bolsa é sucesso certo. Perdi as contas das vezes que me pararam na rua para elogiar e perguntar onde comprei. Verdade que sair com uma melancia pendurada era uma façanha impensável na minha adolescência. Hoje não me aperto se sou posta na berlinda e até consigo brincar com isso, passeando por aí com uma melancia de acessório.

 

Dizem que mais do que de aranhas e da morte, os seres humanos têm medo de falar em público, de serem postos em evidência. Também explicam que a única forma de vencer este pavor é a segurança e ela só vem com a experiência e o preparo.  Talvez quem se esconde tenha medo de não ter o que dizer ou de não dizer corretamente o que precisa. E se atraindo olhares fizer ou falar uma besteira? Melhor ficar encolhidinho e rezar para ninguém notar. O motivo seria, então, o pavor do julgamento alheio. O que os outros vão pensar?

 

E há também quem pague qualquer preço para ratificar a profecia de Warhol, mesmo que para isso tenha que usurpar a melancia alheia ou, ao menos, filar uma fatiazinha. Pensaram em micos saqueadores de frutas, daqueles que fazem a festas das câmeras dos turistas encantados com o exótico? Ou naqueles morceguinhos que juram que são herbívoros, mas que têm sempre um sumo rubro escorrendo pelo canto da boca, que deixa a dúvida sobre ser frutífero ou sanguíneo? Pois estão montando uma imagem bem próxima do que quero dizer. O mais triste é que, não raro, uma vez conquistada a luz dos holofotes captamos um estrondo que nos deixa absolutamente desconcertados e desconfortáveis. É o som do oco.

 

Li outro dia que o lado bom de ser idoso é que você pode dar uma banana para o que os outros pensam. Devo estar ficando velha. Porque pode até não ser lá muito agradável saber que pensam coisas pouco lisonjeiras a meu respeito, mas não é esse o tipo de coisa que me paralisa a ação e o gosto. Já faz um tempinho que descobri certas coisas valiosas. A primeira é que não importa o que se faça ou deixe de fazer, algumas pessoas vão gostar e outras não. Depois, reparei que os motivos das críticas mais apaixonadas muitas vezes acabam virando modelo para os mais ardorosos críticos. Portanto é bom estar atento à incongruência entre o dedo que aponta e o olho que cobiça. E finamente, percebi que na hora do pega-pra-capar as pessoas que saem de fininho são as mesmas de sempre. As que ficam ao nosso lado, também.

 

E, para estas, não tem a mínima importância se eu uso ou não uma bolsa de melancia.

 



Democracia realmente, afinal
04.setembro.2004

“Uma idéia que não é perigosa não pode ser considerada, de fato, uma idéia.”
(Oscar Wilde)

Ontem, um colega de faculdade que não vejo há mais de quinze anos me localizou no Orkut. Alguém do Sul, que ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente, mas que já considero amiga, me agradeceu esta semana porque a ajudei a encontrar e comprar na rede um disco que ela procurava havia tempos, mas não achava na sua cidade. Minha amiga que mora nos Emirados Árabes já viu no Multiply as fotos que tirei do meu filho no último sábado. Coisas maravilhosas como esta acontecem todos os dias. Descobrimos muitas novas maneiras de nos aproximarmos, de divulgarmos nossas idéias, opiniões e umbigos. Visitamos museus do outro lado do oceano, conferimos as instalações dos hotéis onde iremos nos hospedar em Nova York ou em Paraty, ouvimos um trecho da música que iremos comprar... O capitalismo descobriu a força da Internet que, mesmo não sendo o eldorado projetado inicialmente, é uma irreversível e atraente forma de estabelecer comunicação e fechar negócios com clientes. Contudo a maior de todas as revoluções que a Internet pode trazer, a realização de uma utopia, ainda está por ser discutida: a transformação democrática.

Todo o sistema democrático atual está baseado na representatividade. E assim o é porque seria impossível ouvir a opinião de todos os habitantes do país, do estado ou mesmo de um município. Por este motivo elegemos vereadores e deputados estaduais e federais. Teoricamente eles deveriam ser nossa voz em suas determinadas câmaras. Infelizmente, isso acontece raramente. Mais comum é que nosso voto seja investido em alguém de acordo com sua plataforma política, entretanto, tão logo este nosso representante toma posse de seu cargo, esquece suas promessas, troca de partido, nega o que afirmava.

Porém está chegando cada vez mais perto o momento em que todos os cidadãos poderão ser ouvidos. Com a internet chegando a todos os cantos do nosso país, é possível que cada assunto seja apreciado. Vamos realmente ouvir a voz do povo, afinal.

Evidentemente há que se criar mecanismos para que não haja o tipo de distorção que há hoje no judiciário em que uma briga de vizinhos por causa de um cachorro vai parar no Supremo Tribunal Federal. Cada assunto deverá ser mantido em sua instância. E cada projeto só poderá ser apreciado e votado se conseguir um número mínimo de assinaturas, algo semelhante ao que já acontece atualmente nas emendas populares (por exemplo: www.gabrielasoudapaz.org). Os textos dos projetos estariam disponíveis online. As assinaturas seriam online. As votações seriam online. O voto secreto e opcional seria realizado por eleitores cadastrados virtualmente, de acordo com seu número de título de eleitor.

Isso mexeria com diversos interesses, como pode-se facilmente imaginar. Não seria ótimo? O executivo continuaria, mas se tornaria finalmente um servidor da população e não seu soberano.

Para a execução de tudo isso, seria necessário apenas que cada localidade tivesse pelo menos um ponto com acesso à internet que a população pudesse utilizar: agência dos Correios, prefeitura, igreja... Com passos de formiguinha, isso vem sendo feito em todo o Brasil por pessoas envolvidas com a democratização da informática. Alguns outros requisitos estão sendo cumpridos, como a redução do analfabetismo. E a implementação deste sistema alavancaria o desenvolvimento do país, já que os recursos seriam aplicados onde realmente são necessários e seriam levados em conta os verdadeiros interesses da nação. Seria um passo além do orçamento participativo.

Você abraçaria essa idéia?


THERE IS NO SUCH THING AS FREE LUNCH
27.março.2004

Não acredito em demônio e acho que as tentações a que somos submetidos diariamente são fruto da própria natureza humana imperfeita. Se vamos ou não resistir a elas é uma questão de personalidade, caráter, educação, formação moral e ética, experiência de vida e, em casos extremos, necessidade e sobrevivência.

O que importa é que a tentação só pode ser chamada assim quando nos toca, quando nos atrai. O que para uns pode passar despercebido, para outro pode ser motivo para grandes conflitos.

Os estudiosos do episódio da tentação de Jesus no deserto, que eu entendo como uma alegoria, afirmam que tudo isso se baseia em três pilares: a carne, a soberba e a cobiça.

A carne representaria as necessidades mais vitais, os instintos básicos dos seres humanos. Alguém com fome sente-se tentado a roubar um pão. Uma mulher ignorada sexualmente pelo marido é mais vulnerável às investidas de outro homem.

E esta é também uma questão importante, a vulnerabilidade. Se alguém está tentando deliberadamente prejudicar outra pessoa, procura usar não só o que lhe atiça a vontade, mas também busca o momento em que a pessoa encontra-se mais fragilizada, ou ataca pelo flanco mais fraco.

A soberba e a cobiça andam de mãos dadas muitas vezes. Começa com alguém achando que é mais merecedor que os outros e que por isso pode tudo o que os otários não podem. O que ele quer, ele toma sem pedir licença. Alguém oferece propina e o sujeito acha justo, afinal, pensa ele, conquistou uma posição em que sua influência é valiosa, deve ser remunerado por isso além do que está recebendo em seu contra-cheque.

E é com isso que trabalham os estelionatários, levando suas vítimas a pensarem que são muito espertas e que estão se dando bem às custas de um mané, quando quem está fazendo papel de mané são elas mesmas. Todo mundo já ouviu, por exemplo, sobre o golpe do bilhete premiado, aquele em que alguém se faz passar por humilde e ingênuo, enreda o outro como se tivesse em seu bolso o tal volante, mas – coitadinho – precisa voltar com urgência para sua cidade natal. Mas o interlocutor parece ser tão boa pessoa. Será que não poderia adiantar algum dinheiro para a viagem e outras emergências? E ficaria com o bilhete, descontaria o valor na Caixa e enviaria depois para a casa dele no interior. Além do que está sendo emprestado agora, o sortudo pode tirar mais um tanto por conta da sua bondade, viu? E o espertalhão pensa que está dando a volta no caipira ficando com o bilhete em troca de alguns caramingás. Mas quem fica com o mico de um bilhete sem prêmio e ainda sem suas merrecas é ele. Como ele é malandro, né?

Tem que jogar a isca de acordo com o peixe que se quer pegar, na hora certa. E quem quiser manter a ética, tem que conhecer seus limites, suas fraquezas porque sempre vai ter alguém ou algo provocando a ira do irritadiço, a gula do gordo, a imobilidade do indolente, a soberba do vaidoso, a avareza do ambicioso, a luxúria do metrômano ou do solitário e a inveja daquela que se acha injustiçada porque merecia mais que você o que é seu.

Se cada um tem seu preço, é preciso saber qual é seu real valor e decidir se o que se vai ganhar vale sua integridade moral. E é preciso não perder de vista os pesos das coisas. São situações bastante diferentes contratar a sangue frio um grupo de extermínio para dar cabo dos moleques que assaltaram sua loja e atirar no assaltante que naquele momento está espetando uma faca no pescoço de um seu filho.

Nada é de graça. Nem os ingressos para aquela peça. Os produtores esperam que você divulgue e elogie. Nada vem fácil, sem uma etiqueta de preço. E se você não viu a etiqueta, prepare-se para o recebimento da fatura. Quer uma pista do tamanho da conta? Consulte o que o Aurélio chama de “o sentimento do dever ou da interdição de se praticarem determinados atos, e a aprovação ou o remorso por havê-los praticado”, aquela sinetinha com uma luzinha piscante chamada consciência. Sempre que estamos prestes a cair na perdição o Grilo Falante murmura: “Mas não tem alguma coisa estranha aqui?” Pode ter certeza de que se você não é psicopata, sociopata nem esquizofrênico, uma hora o grilo pula.

Só o amor é grátis.

Mas sempre haverá pensões de ex-mulheres, reclamações de esposas, piadas sexistas de maridos, eternas cobranças de mães, ”mas-todo-mundo-tem” de filhos e estatuto do idoso para me desmentir.


Amigo é pra essas coisas
22.junho.2001

— O que é que houve, meu camarada? Tu tá amuado, nem parece o meu chegado Tonhão...

— Nem te conto...

— Aaaaaaah, não! Cê vai me dar licença, mas eu vou sentar aqui e ficar contigo até tu abrir esse peito e contar tudinho que tá te azucrinando. Quem sabe eu posso te ajudar? Às vezes só falar já alivia. A gente somos ou não somos camaradas?

— Somos... Claro! Mas é que é coisa minha, cê sabe... Daquelas que a gente num conta nem pro travesseiro. Cê tá me entendendo?

— Olha, Tonhão. Vamu fazer o seguinte: tu toma uma por minha conta. Traz uma aí, Pará! Põe aqui pro Tonhão que ele tá na precisão. Valeu! Toma! Vira! Isso, garoto! E então, deu prá esquentar? Tá melhor, num tá? Quer outra? Pará, mais uma. E põe na minha conta, que eu tô podendo. Te contei, Tonhão, que fiz um serviço numa casa de madame? Fiquei meio cabreiro porque madame é muito bom na hora de encomendar, mas na hora de pagar é outra história. Mas a perua pagou tudo, de uma vez, direitinho e gostou tanto que já deu dica de outras colega dela prá mim visitar e ver se descolo alguma outra bocada. Puxa, tua cara já melhorou. Viu só? Num tem mágoa que uma água que passarinho não bebe não resolva...

— Tu deve de estar certo... E sabe o quê? Eu é que devo estar vendo coisa, procurando chifre em cabeça de cavalo...

— Ih!... É coisa com comadre Nega, é?

— E o que mais haverá de me deixar desse jeito, homem? Aquela nega é minha vida, tu sabe...

— E o que que houve?

— Tu conhece a Nega... Tem aquele jeitão despachado, cara de braba, mas a gente se damos bem. Ela briga, reclama, mas quando escancara aqueles dente e solta aquela gargalhada, alumia até noite sem lua.

— Pois então...

— Agora deu prá não sorrir mais. Nem xingar meus sapato no meio da sala ela xinga.

— Hum...

— Tu sabe que com criança pequena em casa as coisa de casal muda um pouco, né? Tem que esperar o Uoxinto dormir para a gente podermos vadiar... E às vezes ele dorme depois de mim... É chato... Mas quando tudo dá certo a gente tiramos a forra.

— Êta! Peraí um pouquinho... Pará... Mais aqui... Pronto! Vai, fala...

— Então... Aí no dia seguinte, enquanto faz meu café a Nega canta que é uma beleza, faz festa no menino, essas coisa...

— ...Que tu é homem de saber fazer mulher ficar feliz...

— É... Aí essa semana o Uoxinto começou na escolinha e tem dormido cedo, cansadinho o bichinho. Às vez eu chego do trabalho e ele já tá lá conversando com os anjinho do céu, no maior ronco...

— ... e tu e a patroa em lua-de-mel...

— É... Mas aí é que ficou estranho, porque a Nega não se ri, não tá cantando de manhã...

— Ih!...

— Um sujeito pode ficar com o coração calmo com uma coisa assim?

— Te entendo, te entendo...

— Acho que ela anda com saudade dos tempo de que era rainha da roda lá prás bandas da Boca... Tu lembra como a Nega dançava bonito? Todo mundo parava prá ver, dava gosto... Depois que a gente juntamos os trapo, nunca mais... Eu nem num pedi. Ela mesmo que num teve mais ânimo praquilo. Mas acho que agora tá sentindo falta... Quer brincar um pouco... Fica o dia inteiro socada dentro de casa, cuidando de panela, roupa e menino, tadinha... Às vez eu tenho pena... Fico pensando em levar ela prá dar uma volta na Boca, rever os amigos, dançar um bocado...

— Tu tá doido? Perdeu a razão?

— Por quê!?

— Tu num sabe como anda a Boca por esses dias! Aquilo tá cheio de malandro ordinário, mermão.

— É?

— E num é? Gente da pesada. Tu tá me entendendo? Ninguém respeita mais ninguém. Num tem mais aquela coisa do nosso tempo, não. Ó, vou te dar uma idéia, com todo respeito, porque te considero prá caramba, tu é meu irmãozinho e sei que num vai ficar chateado com teu compadre aqui: Nega é mulé jovem ainda, tá bonitona, mesmo depois de ter menino. Tô falando com respeito, hein! Pois tu vai lá mais tua Nega e chega um otário metido a malandro querendo tirar chinfra. Porque tu sabe que aqui todo mundo te respeita. Nega é a mulé do Tonhão e num tem mais assunto. Mas lá... Ah, meu irmãozinho, é tudo diferente. Eles acha que ninguém é de ninguém. Vai por mim: tu vai te aborrecer. Vai entregar o ouro ao bandido. Claro que a comadre vai fazer ouvido de mercador prás cantada barata. Mas o que que um homem como tu ia fazer se passassem a mão na tua Nega? E hoje em dia, neguinho só quer resolver questã no teco.

— É... tu tem razão... Mas como é que eu vou tirar este quebranto da Nega?

— Tu lembra do João Malé, aquele que vendia de um tudo aí pelas vielas? Então, rapaz, de grão em grão a galinha enche o papo. Ninguém dava nada pelo crioulo e ele guardando seus trocado... Outro dia abriu um bar ali embaixo, perto da Esquina do Pecado. Coisa de muito luxo... Bom gosto que num sei de onde aquele camarada tirou... Pois bem, fui lá outro dia com a Wladislene. Música boa, só casalzinho, bem família... A gente dançamos prá valer... Se divertimos prá caramba e num teve nenhum engraçadinho prá mexer com ela, porque todo mundo tava acompanhado. O maior respeito, percebe? É num lugar assim que tu tem que levar a Nega...

— Será que ela gosta?

— Claro, comadre Nega é mulé fina, sabe o que é bom...

— Isso é mesmo...

— Então... Olha tive outra idéia: Wladislene adora o teu moleque. Mesmo que ela não fosse a madrinha dele ia adorar aquele garoto, porque ele é um menino de ouro...

— Ele é mesmo uma coisa, né? Sabe que outro dia eu cheguei em casa com um agrado prá ele e ele abriu correndo, deixou o brinquedo de lado e ficou brincando com a caixa? Eu pegava o brinquedo, mostrava prá ele, mas ele só queria saber da caixa. O moleque tem opinião que nem a mãe...

— A Wladislene adora o Uoxinto. Eu também tenho o teu menino em consideração de filho. Você faz o seguinte: deixa o garoto com a gente, vai se divertir com a comadre na casa do João Malé e depois... Ah, ah, ah... Tu já viu o novo motel que abriu lá na estrada? O Alemão falou que é coisa de responsa e que é baratinho, quer dizer, dá prá gente pagarmos sem apertar muito, sabe? Tu vai lá, dá um trato na Nega e quero ver se ela canta ou não canta...

— Cês ficam mesmo com o moleque?

— E prá que que serve os amigos? A gente temos que se ajudar, ué...

— Eu acho que a Nega vai adorar...

— Claro!...

— Puxa, tu é mermo um irmão. Num é à toa que a gente te escolhemos prá batizar o menino...

— Ah!... Deixa disso que tô ficando encabulado.

— Vou falar com a Nega...

— E pode deixar que essa eu acerto que tu vai precisar de algum prás tuas investida romântica. Num esquece de comprar umas flor prá ela... Um vestido bonito...

— Tá, tá... Deixa eu ir que tu tá me enchendo de idéia... Valeu, mermão! Té mais...

— Vai pela sombra... Tu tá vendo, Pará, como é que é essa vida? Tu fica aí atrás desse balcão e vê tudo... Se eu não espremo este camarada, no que que num ia dar esse assunto? Eu aqui crente que o papo com a Nega foi só uma coisica à toa e ela já desgostando do Tonhão... Só me faltava essa... Se eu num tomo uma providência, Nega e Wladislene qualquer hora dessa tão descendo esse morro agarradas nos cabelo uma da outra. Essas mulé de hoje em dia tão muito carente, se apaixona por qualquer coisa. Eu, hein!


Política de botequim
1º.junho.2001

— O Salgueiro vai descer.

— Me disseram que o Turano também.

— Por que que aquele povo tá correndo?

— Sei lá, mas não vou ficar aqui esperando para saber.

As lojas da Praça Saens Peña e adjacências baixaram as portas. Todo mundo sabia: o morro ia descer.

Pânico! Mães foram buscar os filhos mais cedo na escola. Pelo telefone, parentes e amigos recomendavam que a Tijuca fosse evitada a qualquer custo. O zunzunzum alastrava-se como fogo pela cidade. O policiamento da área foi reforçado, mas os comerciantes, temendo o pior mantiveram seus estabelecimentos fechados. Quem não tinha outro jeito passava pela Rua Conde de Bonfim agarrado à carteira e à bolsa e com olhos na nuca, preparado para atirar-se ao chão ou sair em disparada mediante qualquer ruído ou movimento suspeito. Nunca num só dia tantas pessoas arranharam joelhos e mãos ao som do motor de um fusca velho.

A tarde do apocalipse acabou, vieram a noite e a madrugada, o dia amanheceu e a Igreja de Santo Afonso ainda assistiu a passos, ouvidos e olhos desconfiados desfilando pela vizinhança, apesar de nada, absolutamente nada além de pequenos sustos, terem acontecido na véspera. Os policiais continuavam de plantão. Surpresa: paz!

As investigações comprovaram que um enorme boato tinha acontecido. Só mesmo uma população receptiva a tragédias e calamidades levaria a sério a história de que uma comunidade pacífica como a do Salgueiro ia tomar o asfalto de assalto. Apenas quem não entende nada de política de tráfico pensaria que os chefões deixariam um evento destas proporções acontecer e atrapalhar seus negócios.

— Eu sabia que só podia ser balela. Só liguei prá Glorinha e fui pracasa mais cedo porque nunca se sabe, né?

— Eu também. Mas a gente nunca sabe direito o que se passa na cabeça dessa gente... Ficam lá em cima só fazendo filho e pensando besteira... Mas ainda bem que foi só história... Vamos ali tomar um cafezinho?

— Claro! E você, hein? Já escolheu seu candidato?

— Eu ia votar no Conde, mas depois do susto que passei ontem... O César Maia é meio doido, mas, sei lá...

Discretamente, os jornais publicaram um trecho de um livro do prefeito que sairia das urnas logo depois. Lá ele ensinava a arte do boato. Bastava plantar em pontos estratégicos da cidade — nos botequins, é claro — indivíduos pagos pelo mentor do rumor, que divulgariam a história, recheando com citações de fontes seguríssimas.

— Olha... (pausa... uma olhada discreta para os dois lados... braço do interlocutor entre os dedos...) Meu primo trabalha na PM, tá sabendo? Sabe o que mais? Tão reforçando o policiamento aqui por essas bandas... Descobriram um plano dos traficantes, xará... O morro desce hoje. Éééé, mermão... Eles querem mostrar quem é que manda. Tá me entendendo? Isso aqui vai virar uma praça de guerra, cumpadi. Se eu fosse tu, fazia que nem eu: tomava a saideira e sartava fora.

— Ô, Zé! Põe um pingado aqui prá mim rapidinho, que eu não tô a fim de dar bobeira por essas bandas hoje não. Tu não sabia? Tão falando que o Salgueiro vai descer. Vai ser um auê dos bons...

Sempre fui fascinada por botequins. Cada um tem seu espírito, sua identidade, sua própria dinâmica e porcaria. Não são apenas fontes de boatos ou local barato de lazer. São, antes de tudo, bom termômetro do ânimo da sociedade. Parar e ouvir o que se passa nestes redutos de carioquice é tema de arte e entretenimento.

Junto com o maço de cigarro hoje no balcão, peguei uma das melhores análises sobre o problema energético e demais questões que envolvem o governo atualmente. O cabra nordestino que dirige a bodega foi se entusiasmando com o meu interesse, as veias do pescoço crescendo e a cara ficando vermelha. Dava gosto de se ver. Foi lá no rádio e quase tirou a voz do Falamansa.

A cozinheira veio ver o que se passava com o chefe e também palpitou duro. O cara que estava fazendo hora numa das mesas da calçada espichou o ouvido, cuspiu o palito que vadiava no canto da boca e soltou o verbo. O outro não tirou o olho do copo de cerveja quente, mas assentia martelando com a cabeça. De repente, já não se podia distinguir o que se falava, tamanha era a vontade e a necessidade de todos e de cada um daqueles indivíduos de expressar a sua revolta . Tempo quente num Rio abaixo de 20º C.

E ainda tem quem defenda a tese de povo inconsciente e alienado... Pois sim! Será que ninguém reparou que nas últimas eleições, quando os escândalos ainda não tinham tomado estas proporções que vemos nos últimos tempos, nem tinham atingido direta e claramente o orçamento doméstico, as urnas já mostravam a insatisfação popular com o governo?

Pena que o tempo dos grandes líderes tenha se acabado. Os botecos da Cidade Maravilhosa já estariam prontos para sair às ruas com suas tropas rotas, bêbadas e vadias.


Fiat Lux
25.maio.2001

Minhas astrólogas de plantão informam sobre um posicionamento planetário que influencia nas comunicações e eu, que fico aqui tentando decifrar este astrologuês, pensei com os meus botões sobre o impacto que os meios de comunicação causaram neste caso da quebra do sigilo do painel eletrônico. Porque uma coisa é ler no jornal que fulano disse isso e aquilo, outra coisa é ver a edição sucessiva de imagens deste mesmo fulano negando veementemente e depois admitindo seu quinhão de culpa.

Se nenhum golpe espetacular de última hora ocorrer — como a abertura das burras do Príncipe das Trevas no caso da CPI da corrupção — entre o momento em que escrevo e o momento em que você me lê, já estamos respirando um ar mais puro por essas bandas.

Toninho Malvadeza e seu moleque de recados anunciaram que vão deixar o Senado antes que seja decretado o óbvio: a cassação.

Tudo bem que queríamos vê-los sair escorraçados e que este imbróglio cabe como a história do imposto de renda para Al Capone; é óbvio que o ideal seria a inelegibilidade, mas, a tomar como amostra os que foram prestar solidariedade ao ex-dono do país, parece que a ameaça de retorno do demo foi esvaziada até em seu reino nagô. Até os orixás lhes voltaram as costas, apesar das lágrimas e rezas da quituteira Dadá, da pisada no tomate de Zélia Gattai e da prova dada pela Gal de que sob uma vasta cabeleira morena também pode habitar uma burrinha (tm Jards Macalé).

O próximo capítulo? Posso ser a otimista prosa de plantão, mas estou apostando minhas fichas no resultado das urnas.

Voltando ao aspecto planetário das comunicações, parece que ele não funciona ampla, geral e irrestritamente. Essa história de "mobilização cívica" vendida principalmente pela TV não está sendo comprada assim tão fácil. Tenho conversado com legítimos espécimes do povo — aquele tipo de gente do qual adoramos nos diferenciar quando afirmamos coisas como "nós (a elite) temos consciência disso, mas o povo..." — e a turma está, sim, consciente de que há algo de muito podre na questão do apagão e do racionamento.

Aliás, a desconfiança anda em alta quando se trata de qualquer coisa vinda desse (des)governo. Até mesmo quando não deveria. Outro dia ouvi de uma senhora de idade: "Imagina se vou a um posto de vacinação tomar essa coisa pra gripe que eles estão falando para a gente tomar. Eles pagam uma aposentadoria miserável, não fazem nada para melhorar hospitais e não tem remédio pra gente. Imagina se vou deixar que enfiem uma agulha no meu braço e ponham sei lá o quê prá dentro de mim. De graça!? Só pode ser coisa pra matar logo de vez."

Esse é o tipo de expectativa que o Príncipe das Trevas está imprimindo na alma da nação. E agora resolveu que quer rasgar a Constituição para colocar nas ruas estas sobretaxas absurdas. Só tiro uma coisa boa dessa história. Descobri que, mesmo vivendo uma vida praticamente espartana, sou rica, porque consumo mais de 200kw/h por mês. Talvez no próximo mês eu deixe de pagar a conta de luz e vá gastar minha recém-descoberta fortuna visitando todos os países que nosso presidente já visitou às nossas custas.

Não seria ótimo se eles resolvessem ouvir suas próprias teorias, seguissem radicalmente seus princípios e retirassem a figura de governo e Estado definitivamente de nossas vidas? Porque a cada dia que passa, fico mais inclinada a acreditar que quando e onde o governo não interfere, o país vai muito bem, obrigada. Ou seja, se ele não consegue fazer o mínimo que considera que lhe cabe, afinal que diabos ele está fazendo lá?


Tudo bicho
06.abril.2001

O médico psiquiatra, psicoterapeuta e escritor Flávio Gikovate em um artigo que li recentemente diz que não gosta das comparações feitas entre o comportamento dos animais e o da espécie humana. Falava isto a propósito do cio, que contrariamente aos de outras espécies seria contínuo nas mulheres. Ele alega que as mulheres atraem os homens durante todo o ciclo menstrual, mas isto não significa que esteja disponível para o sexo durante o mesmo período. Fiz conexão imediata com um artigo da revista Veja, em que uma cientista inglesa (meu lado politicamente incorreto grita: claro!) afirmava que a maioria das mulheres se satisfazia com não mais que uma sessão de sexo por mês. Assim, aos homens caberia o desejo constante ao farejar o cio ininterrupto das mulheres em idade fértil. Para elas ou tanto faz ou de vez em quando está bom. Eu, uma reles psico-nada, penso cá com meus botões: caramba!

Pois meu queixo encosta no colo. Ainda hoje, se estou sempre a fim, pareço um homem, e não estar a fim todo dia é coisa de mulher. Uau! Mas sabe o que penso sobre esta argumentação de ter consultório cheio de mulher correndo atrás de orgasmo? Que ela correu pra vala com a chegada do Viagra. Se os homens são tão poderosos assim e são as mulheres as que têm dor de cabeça, por que a pilulinha azul virou coisa tão desejada? Hein? Hein? Hein? Sexo é instinto sim, só que carregado de problemas culturais. E, infelizmente, as interdições culturais sempre foram mais pesadas nos ombros femininos. Basta comparar a questão das anoréxicas com a das frígidas. Comer virou pecado, aí aparecem vários problemas. Mas se a gente abstrair a culpa vai ver que tudo o que é instinto vem acompanhado de prazer (pelo menos para quem é saudável). Sabia que a rainha da Inglaterra foi educada para não fazer xixi? Pelo menos durante as cerimônias oficiais, que podem demorar de alguns minutos a um dia inteiro.

Durante o carnaval, tentei colocar parte da leitura em dia. Muita coisa para estudar e pesquisar, mas muita curiosidade também. Muitos outros artigos interessantes me caíram nas mãos. Entre eles, um sobre bajulação e outro sobre auto-estima. Já confundi tudo e não é mais possível citar fontes, entretanto encontrei pontos de contato nestas duas matérias. Então vou comentar minhas conclusões e não os artigos em separado. Havia uma comparação com a sociedade animal mais próxima da humana, a dos chimpanzés. Os chimpanzés têm um sistema hierárquico bem definido. O chefão anda ereto, demonstrando poder. No cérebro destes espécimes encontram-se altas taxas de serotonina (sei lá como se mede isto). Os abaixo dele andam meio curvados diante do chefão, mas se erguem diante dos subalternos, e assim sucessivamente. A serotonina é diretamente proporcional ao status. Para conseguir aceitação, favores e outras coisitas, os subalternos bajulam o líder, de diversas formas (familiar, não?). Acontece que testes feitos em ambientes em que o macacão via o grupo e o grupo não via o macacão (e portanto não podia demonstrar seus "respeitos") provaram que a segurança do líder vai-se deteriorando.

Tem mais: os outros macacos sabem o seu devido lugar, porque o líder já mostrou quem manda. Cada macaco no seu galho meeeeesmo. Aí entra a auto-estima. O sub-líder sabe que não pode lutar com o líder, então abaixa a cabeça. Preservação pura e simples. A analogia citada era discutir física com Einstein ou comprar uma briga com o Tyson. Quem tem baixa auto-estima é porque passou por experiências que demonstraram que não é capaz de determinado feito, então não querendo repetir a experiência de fracasso (ou arriscar a vida), não volta a tentar. A diferença (e esta conclusão é minha) é que a gente se fecha por causa de uma experiência e não vê que as situações nunca são realmente idênticas e que nós mesmos mudamos e podemos ser capazes hoje do que não éramos no passado.

Mas tanto lenga-lenga é para dizer que instinto de preservação e satisfação com o poder (para desfrutar da melhor banana ou da primeira classe nos aviões) é instinto, sim. No fundo, somos bicho. Só que racionalizamos. E como a gente racionaliza estes instintos são outros quinhentos contos.


Costurando idéias
25.agosto.2000

Lia num dos contos mínimos de Heloisa Seixas sobre uma performance que lhe teria causado tremenda impressão.

Durante uma festa, vários jovens entram no salão carregando, cada um, um banquinho. Depois de conseguir captar a atenção dos presentes com tão inusitada aparição, revezam-se sobre seus respectivos bancos, declamando um belíssimo texto sobre a arte e a imortalidade. A cronista ficou especialmente impressionada com a última fala: "Todos nós devemos expressar a arte que carregamos em segredo. É essa nossa pequena imortalidade. Por isso, convido cada um de vocês a, pelo menos uma vez na vida, seja de que forma for, tomar coragem e subir no seu próprio banquinho."

Penso também na necessidade do ser humano de deixar seu rastro, fazer a diferença, marcar presença de alguma forma. Alguns através de sua descendência, outros através de sua arte, e ainda os que se submetem a verdadeiras vexações em troca de seus minutos garantidos pelas profecia Andy Warhol.

Como sou mais pop que intelectual, lembrei da personagem de Michael J. Fox no primeiro episódio da trilogia De Volta para o Futuro. Guitarrista talentoso e ousado, teme mostrar sua arte e abomina uma possível rejeição até que encontra, no passado, o pai — estereótipo da frustração e miséria espiritual no presente — ecoando suas palavras sobre a própria arte. Claro que na fita ele "sobe em seu banquinho" durante um baile de formatura. Outro dia conversava com uma amiga sobre seus inegáveis talentos e ela contava de sua timidez, sua modéstia... Quanto desperdício! É até covardia privar a humanidade de tanta beleza, estilo e riqueza, reservando-os apenas para os amigos. O mundo merece conhecê-la.

Em linguagem empresarial usa-se o termo limite de competência. É quando um funcionário vai sendo promovido até o ponto em que não consegue realizar a função e é demitido. Como saber a altura do nosso banquinho? Como saber quantas pessoas permanecerão na sala quando começarmos a expor nossa pequena imortalidade? Como sabermos se somos um participante de No Limite ou um Gilberto Gil? Não há respostas dentro de nós. Para isto dependemos da impressão que causamos no outro. E talvez, como para Van Gogh, o outro só chegue depois de sua partida. São sementes ao vento...

Talvez a sementinha atravesse o Atlântico e lá no Velho Continente toque um galho de sua árvore genealógica? Quem sabe se será capaz de germinar em terreno árido, hostil? Qual será o limite de sua competência? Suba no seu banquinho, lance sua semente e enfrente com galhardia a resposta, quiçá silenciosa, do tempo...


Brasil
21.julho.2000

A roda de samba no céu está cada vez mais animada.

Será que desta vez o LuxemBurro cai?

No bar ontem à noite muitos comemoravam os gols do Paraguai. Isto existe?

Se depender do que foi dito na entrevista ao Jô, Luis Estevão merece, no mínimo, a canonização.

Todo mundo acha o último CD da Marisa Monte inferior aos anteriores, mas ele continua vendendo como água e os shows estão lotadíssimos.

Eu, Tu, Eles e Regina Casé foram premiados.

O show de Sandy e Júnior reproduz as quatro estações, com cheiros e temperaturas típicos. Será que eles usaram como parâmetro terras tropicais ou climas temperados? A dupla transformou-se em Midas. O João Gordo disse que quer comer a Sandy. Se ela der uma de Alanis Morissette, deixar o virginal posto de modelinho infanto-juvenil e trepar com o rato de porão, juro que vou passar a gostar dela. O IMDB fazia um link da Sandy no filme dos Trapalhões com uma atriz pornô. Quem dera!

O gelo cobre o topo do estado do Rio.

FHC jura que assinou sem ler.

O sol está pálido e eu também.

Estão doando computadores para as favelas. Os excluídos chegam à Internet.

Os níveis de educação crescem, aumenta a estatura média e dilata a expectativa de vida.

Não leio ou escuto mais sobre Tiazinha, Feiticeira ou Carla Perez. Acabou o Império da bunda?

Monique Evans foi demitida do Shop Time e seu pastor gritou Amém.

Mauro Ventura disse que seu delírio em busca da celebridade é encontrar seu nome na Crônica do Dia. Acho que sou famosa e não sabia.

Alguém ainda lembra do Tiririca ou do Padre Marcelo Rossi?

Uma amiga ilustrou o livro de poesia para crianças da Elisa Lucinda. Outro amigo está com uma belíssima exposição no Centro Cultural Cândido Mendes em Ipanema. O site de outra amiga está sempre na imprensa com comentários elogiosos. E viva o talento! "Tenho inveja de mim pelos amigos que tenho."

O calçadão de São Conrado está desmoronando com a ressaca. O Havaí é aqui.

Explodem bueiros pela Zona Sul. A CEG esburaca as ruas do meu bairro.

O Maior do Mundo está sendo reformado. Está ficando colorido e, dizem, mais confortável. Quando vão contratar os Ghost Busters para expulsar a final de 50 de lá?

Gianne Albertoni escorregou e caiu na Semana Barra Shopping de Estilo. Minha avó sempre dizia que saco vazio não pára em pé.

Quero nome, endereço e telefone do pai de santo do Pitta.

O Brasil lidera as pesquisas de câncer do Projeto Genoma. Cientistas brasileiros conseguem isolar a bactéria que destrói os laranjais. Pequenos milagres dos obstinados.

Quem está disposto a acompanhar as humilhações de No Limite? Quem deixa de ver as biografias e documentários do People & Arts para ver o Jogo do Milhão? Quem põe lenha na fogueira da briga de números entre Gugu e Faustão? Quem escondeu o Cazé e o Serginho Groissman? E pior, quem reclama de tudo isto e continua engrossando o IBOPE destas anomalias?

Uma Gabi desesperada diz que quer colocar um piercing lá. Está difícil lidar com Vera Fisher e Carolina Dieckman.

Luciana Gimenez não quer ninguém se metendo em sua vida pessoal.

Estão relançando o disco do Tom Zé com um olho cego na capa.

Desconfio que o trio que canta Dancin'g Days não é composto por filhas, mas sim clones da Baby.

A Petrobrás faz uma belíssima propaganda institucional que passa no intervalo que sucede a notícia de mais um enorme vazamento de óleo.

Não sei da nacionalidade de Deus, mas Ele tem muito humor.


O Diabo e sua Filha
14.abril.2000

A idéia veio como um raio fulminante, o tipo de inspiração que somente ele, o Diabo poderia ter.

Ele a criou esteticamente perfeita, um corpo fenomenal onde qualquer mortal jamais poderia encontrar qualquer defeito, um rosto em que cintilariam olhos convidativos, dentes perfeitamente alinhados, lábios que implorariam por serem beijados. Isto despertaria a LUXÚRIA, faria com que muito quisessem vê-la, tocá-la, ser como ela a qualquer preço. Claro que isto não era tudo. Beleza seu concorrente era capaz de criar a todo momento. O que fazia esta criatura tão especial para seus maquiavélicos propósitos é que ela seria carismática, mas não talentosa; esperta, mas não inteligente. Contudo a excelência de seu plano ia além, muito além...

A atenção conseguida por aqueles que a admirariam seria ínfima perto da IRA que suscitaria nos que encontrariam nela pouco além de uma beleza cegante. Por não disporem de seus atributos, se corroeriam de INVEJA e, sem perceber, na tentativa desesperada de destruí-la, falariam dela sem parar, atiçando a curiosidade de quem ainda não a conhecia, transformados, sem querer em seus maiores agentes promocionais.

Estes, em sua SOBERBA, alardeariam suas próprias qualidades, em detrimento das da filha do Demo. Louvariam as vantagens da GULA, em repúdio à imagem esguia da musa do Capeta. Pregariam a PREGUIÇA como solução contra seu corpo bem delineado. Cantariam as maravilhas da AVAREZA em detrimento aos rios de dinheiro que ela ganharia.

E então, todos esqueceriam de cuidar da própria vida, de ouvir boa música, de ir ao teatro ou ao cinema, de conversar com os amigos sobre assuntos realmente importantes, de ler um bom livro. Estariam todos preocupados em saber qual foi a última declaração da filha de Sam para criticar sua boçalidade com argumentos mais convincentes. Esqueceriam de recomendar um bom filme ou um bom CD e viveriam em função da diabólica Mídia-girl.


O fascínio que ela provoca
24.março.2000


Não se pode dizer ainda, nestes dias de março, que a temperatura esteja amena. Por isto fiquei tão intrigada com aquela negra camiseta de mangas compridas sob o jaleco da escola técnica.

Ele e eu estávamos andando em direções opostas e, à medida que se aproximava, aumentava o contraste entre a estampa de caveiras e seu rosto imberbe. Os óculos de cdf davam-lhe ares de moleque punheteiro, daqueles que veneram as tiazinhas, enquanto decoram fórmulas de física.

Por que diabos este mancebo estaria desfilando tão tenebroso figurino pelas ruas quentes do Maracanã?

Fiquei pensando no fascínio que a morte exerce sobre os jovens. Eles crescem matando inimigos em seus vídeo games, fazem a festa de produtores dos Pânico e Eu Sei O Que Vocês Fizeram... da vida e idolatram grupos de rock que flertam com o trágico. Por quê?

Talvez porque saibam que o quanto o assunto incomoda os que já foram beijados pelo anjo da morte — nós, os adultos — e em sua necessidade de chocar para atrair atenções, encontrem aí um terreno fértil para descarregar sua rebeldia sem causa.

Não posso deixar de pensar nesta doce criaturinha que habita o quarto ao lado e hoje molha suas plantinhas com tanto carinho, insiste em ter um bichinho de estimação e puxa conversa com quantas crianças cruzem o seu caminho. Será que um dia vai querer ostentar a morte em suas vestes? Com que tipo de estranho serei obrigada a conviver daqui a uns dez anos?

Uma vez ela me disse que preferia quando eu era bem pequena e ela era dona da minha vida e respondi que ela não queria uma filha, mas uma boneca. Será que hoje quem brinca de mãezinha sou eu?


A Camiseta Furada
15.fevereiro.2000


Qual de nós não tem ou teve aquela camiseta bem deformada, super confortável, com um furinho safado e que a gente insiste em usar em casa, quando ninguém está vendo?

A gente chega com um mau humor daqueles, depois de um dia de cão e ela nos espera e nos abraça e nos faz esquecer que há um mundo hostil lá fora. A gente briga com o namorado, discute com a mãe, engole mais um sapo do chefe e, antes de pegar a caixa de chocolate, veste a camiseta. O pneu furou logo depois que desabou a maior chuva dos últimos tempos e não parou ninguém para lhe ajudar a trocá-lo? Então você sonha em chegar em casa, tomar um banho bem quentinho e vestir a camiseta.

Mas tem um dia que você acorda e não se anima a sair da cama. Dentro de sua inseparável companheira, descobre uma desculpa para dar lá no escritório. Já é hora do almoço, mas a fome não vem. Você acha uma boa pedida mergulhar em um pacote de chocookies enquanto a sessão da tarde lhe faz companhia. Sabe aquele furinho? Você acha graça em pensar que grande do jeito que está pode ser considerado uma espécie de ar condicionado. O toque do telefone é desagadável, mas você prefere deixar tocando a ter que ouvir alguém do outro lado da linha. Por falar em linha, que linha é esta pendurada aqui? Ih! Quando você puxou veio junto metade da bainha frontal. É, a companheira velha está nas últimas. Bom poder reparar nela. Enquanto faz isto não repara em você.

Pois é, vocês já devem ter percebido onde quero chegar.

Primeiro, uma camiseta destas pode ser um conforto e tanto, a menos que você não queira mais tirá-la do corpo. Vamos nos desmanchando com ela. A única diferença é que o fim dela é o lixo ou, na melhor das hipóteses, virar pano de chão. Este é o seu destino? Com certeza você já teve um amigo camiseta-velha. Com certeza você já teve dias camiseta-velha e aposto que só melhorou quando resolveu tomar um banho, vestir uma roupa decente e passar um batom. Sair de casa é opcional, mas ajuda estar com pessoas ao invés de estar com malhas de algodão.

Outra atitude recomendável é jogar este troço fora o mais rápido possível. Sabe por quê? Dá uma olhada no espelho e repara se atraente é uma boa descrição do que vê. Sabe aquela caixinha de chocolate, o chocookie, a sessão da tarde? Vamos trocar por uma maçã, uma saladinha e um cinema? Ninguém gosta de um espantalho. Nem você. E se você não se cuida, não se gosta, quem fará isto por você? Apenas aquela velha (amiga) camiseta que lhe dá conforto momentâneo, mas quer lhe levar junto com ela para o lixo.

Sempre alerta! As camisetas velhas são uma tentação perigosíssima!


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Publicadas originalmente no site CRÔNICA DO DIA.

Imagem: Golden & Elegant, Dexter Griffin